18.6.10

Meu herói

De manhã, antes de vir pro trabalho, meu irmão me ligou, com voz chorosa. A gente quase não se fala no telefone, porque eu tenho preguiça do Skype e quando eles me ligam o telefone toca 3 vezes e não dá tempo de atender. Já fiquei preocupada, porque minha mãe andou internada na UTI e faz uma semana que meu pai não me manda e-mail com notícias. Eu sei, eu tenho que ligar pra eles. Enfim. Meu irmão me ligou, eu no elevador. E não dá pra escutar direito e eu já, né?, gente!, que foi que aconteceu? Chego no lobby do prédio e meu irmão me diz: "Só liguei pra te dizer que o Saramago morreu. Ontem à noite, na casa dele." Como se fora, né?, uma pessoa da família. 

Eu conheci Saramago lendo O Memorial do Convento pra FUVEST. Só por isso valeu ter prestado vestibular. E fui lendo e lendo, lendo. Deu pro meu irmão, dei pro meu pai ler também. Fui a um evento na Livraria Cultura com meu pai pra vê-lo falar sobre as coisas do mundo tão lindas e importantes de que ele falava. De justiça social, mas sobretudo de compaixão.  Lotadaço, a gente ficou de fora, de pé, assistindo por um telão. Acho que meu pai chorou. Fui a outro evento no SESC em que o Raul Cortez lia passagens de um livro e depois apartei a mão do Saramago. Fiquei muda, o que eu ia falar pra ele? Oi, Saramago, você é meu escritor herói? Oi, Saramago, você me parece ser pessoa boníssima. Apartei a mão dele e ele autografou um livro pra mim. Imagina que tesouro. Ficou esse mundo mais vazio, menos poético, menos cheio de frases longas, cheias de vírgulas, e de sentimento. Um mundo cheio de livros e de ideias e ideais. Pilar: um beijo pra você.

* * * 

Isso eu escrevi faz anos, quando ainda escrevia coisa com coisa. Ou coisa só.

* * *

Anteontem eu sonhei com a minha avó Isaura Teixeira da Costa, que me assava pão-de-ló e salpicava açúcar e canela por cima. Era o meu presente quando eu ia visitá-la no interior. Quando ela ficou mais velhinha, ela se esqueceu de que o meu presente era pão-de-ló e passou a assar bolos de fubá, que não era os meus preferidos, mas ainda eram para mim. 

Uma vez minha avó me fez uma boneca de pano. Ela não enxergava bem e as mãos tremiam e eu consigo até imaginar a minha avó sentada na máquina de costura cortando retalhos e desenhando os olhos e a boca. Quando eu cheguei, ela disse: Fiz uma boneca para você. Mas os olhos eram tortos e os braços e pernas eram cada um de um tamanho e a boca era borrada. E eu disse que não queria, que a boneca era feia. Minha avó tinha cheiro de velhinha, tinha cheiro de avó. E ela dizia pra mim que eu não gostava dela e eu nunca, nunca disse que eu gostava tanto, apesar de que, uma vez, tenha saído com o meu pai para ir comprar pra ela um presente. Achei que o presente poderia significar: vó, eu gosto sim.

No meu sonho, minha avó era enorme. Ela era mesmo muito grande e eu olhava pra ela e eu dizia que me desculpasse, porque nunca eu lhe tinha dito que eu gostava dela assim. E ela me abraçava com olhos de avó e não me dizia nada. Ela me abraçava com braços de avó. 

Ao menos nos sonhos a gente é capaz de dizer o que nunca soube. Mas seria melhor que eu não tivesse esperado pelo sonho, nem tivesse levado tantos anos, muito mais tantos, esperando por esse.

Sobre o assunto, pequena seleta de José Saramago. Surpreendi-me com a coincidência desses trechos com o que venho lhes contando sobre as palavras. Faz muito tempo que li esse livro, talvez tenha sido em meados do ano passado ou até antes. E as palavras que li e os pensamentos que elas formaram em minha cabeça permaneceram sendo pensados sem que eu soubesse, até que eu tivesse finalmente uma manhã de segunda-feira, com chuva e trânsito, para que, de pensamentos escondidos, transformassem-se finalmente em idéias.

"Um dia compreenderás, Espero bem que sim, mas não com palavras, por favor, estou farta de palavras. (...) É o mesmo problema de sempre, se não falamos somos infelizes, e se falamos densentendemo-nos,(...)" pp. 266-267
"Adiantar-nos, por temerárias suposições, ou por aventurosas deduções, ou, pior ainda, por inconsideradas adivinhações, ao que eles pensaram, não seria, em princípio, se considerarmos a presteza e o descaro com que, em relatos desta natureza se desrespeita o segredo dos corações, não seria, dizíamos, tarefa impossível, mas, uma vez que esses pensamentos, mais cedo ou mais tarde, terão de vir a expressar-se em actos, ou em palavras que a actos conduzam, pareceu-nos preferível passar adiante e aguardar tranquilamente que sejam os actos e as palavras a manifestar os pensamentos."283
"Quanto a imaginar como é possível juntarem-se em uma pessoa sentimentos tão contrapostos como, no caso que temos vindo a apreciar, a mais profunda das alegrias e o mais pungente dos desgostos, para depois descobrir ou criar aquele único nome com que passaria a ser designado o sentimento particular consequente a essa junção, é uma tarefa que muitas vezes foi empreendida no passado e que em cada uma delas se resignou, como um horizonte que se vai incessantemente deslocando, a não alcançar sequer o limiar da porta das inefabilidades que esperam deixar de o ser. A expressão vocabular humana não sabe ainda, e provavelmente não o saberá nunca, conhecer, reconhecer e comunicar tudo quanto é humanamente experimentável a sensível. Há quem afirme que a causa principal desta seriíssima dificuldade reside no facto de os seres humanos serem no fundamental feitos de argila, a qual, como as enciclopédias prestimosamente nos explicam, é uma rocha sedimentar detrítica formada por fragmentos minerais minúsculos, do tamanho de um/duzentos e cinquenta e seis avos de milímetro. Até hoje, por mais voltas que se dessem à linguagens, não se conseguiu achar um nome para isso." 302-303
SARAMAGO, José. A caverna, São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

9.6.10

Paixão fingida - Oitavo episódio


Leia, obviamente, de baixo para cima.

E, por favor, xingue o Fulaninho. Eu ia chamar de Sujeito, mas estou com vontade de ofender, então resolvi chamar de Fulaninho.

De: Ioney XXX
Para: Amigo da Ioney
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:25
Assunto: RES:RES:RES:RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Consigo até te imaginar vestindo terno riscado, com lenço no bolso, as bochechas cheias de algodão, uma fumaça na sala, contra-luz. O Sujeito na sua frente, morrendo de medo da sua cara ameaçadora e você quase gritando, mas sem precisar (o que dá mais medo ainda): MACARRONI! 

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De: Amigo da Ioney
Para: Ioney XXX
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:23
Assunto: RES:RES:RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Pois é, tipo aqueles mafiosos italianos, que conquistam a confiança da pessoa e depois aproveitam.
Rimar com Ioney é não é fácil.
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De: Ioney XXX
Para: Amigo da Ioney
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:20
Assunto: RES:RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Macarroni?
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De: Amigo da Ioney
Para: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br
cc: Ioney XXX
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:15

Assunto: RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

ora, ora, ora,
pro seu latim eu não dou bola
sou amigo da Ioney
e a defendo dos macarroni
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De: Ioney XXX
Para: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br
cc: Amigo da Ioney
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:00
Assunto: RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Isso mesmo, Amigo da Ioney, dá nele! Dá nesse Sujeitinho!
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De: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br
Para: Amigo da Ioney
Enviada: Fevereiro 26, 2003 10:12
Assunto: RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Quem é você, seu sujeitinho, que pensa que pode mandar uma mensagem ameaçadora dessas?
Ah, eu estou morrendo de medo.
Sempre tive medo de estrofes. Muito mais de rima rica.
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De: Amigo da Ioney
Para: Sujeito - Su-jei-to
Enviada: Fevereiro 25, 2003 16:57
Assunto: Seu, seu, seu Sujeito!

Sujeito ladrão de caixinhas
trate bem a minha amiga
senão eu te bato na barriga
e te encho de riminhas
* * *

Por algum estranho motivo, Sujeito me manda cópias ocultas dos emails que recebe dos meus amigos. Não, Sujeito, eu não vou te defender (pelo menos por enquanto). E não, eu não estou indignada com o fato de as pessoas mandarem mensagens ameaçadoras para você.

8.6.10

Paixão fingida - Episódio Sete e Meio

Se eu tivesse um anel de super gêmeos, eu ia dar o outro que faz par com esse anel para alguma amiga minha, e eu diria: Na forma de uma Meg Ryan de gelo! Mas não, eu não tenho esse anel e agora tenho que resolver se:

(a) filtro os e-mails do Sujeito;
(b) peço de volta a caixa de lembranças porque eu não suporto pensar que ele terá lembranças minhas;
(c) desanco o Sujeito e uso todos os palavrões que eu aprendi com os meus irmãos mais velhos;
(d) ajo como uma mulherzinha: confusinha que só vendo, mas com uma predisposição para desculpar e tentar de novo, que é indescritível e inexplicável; ou
(e) n.d.a.

O que faço? O que é que eu faço?

P.S. Não é bonitinho como ele sabe separar sílabas? Su-jei-to. Aliás, como estou morrendo de raiva dele, no momento, se quiser, escreva para ele, nesse endereço  (abaixo) e xingue de todos os nomes que quiser. De preferência, identifique-se como sendo meu amigo.
 ***
Nota de atualização: Obviamente, o e-mail do Sujeito não está mais em uso. Entonces, nem adianta tentar, tsá?