7.4.10

Paixão fingida - Quinto episódio

Pois considerando um conselho aqui, outro ali, resolvi dar uma chance ao Sujeito e fomos ao cinema. O filme pouco importa. Na verdade, ele tomou o cuidado de escolher um que não parecesse inteligente demais -- de maneira que tivéssemos que realmente prestar atenção no roteiro e em tudo --, nem fosse excessivamente água com açúcar -- o que me faria achá-lo bobo. Mas cinemas são esses lugares que parecem ser seus amigos. Você entra no cinema e ele não lhe é nada estranho, é muito familiar, é como se fosse ficar escarrapachado no sofá da casa do seu melhor amigo, aquele amigo que você procura para não fazer nada com ele. Para ver tv e tomar Coca-Cola (light com gelo e limão -- em substituição ao querido guaraná diet com gelo e laranja -- resolvi dar um tempo dele para melhorar a nossa relação desgastada) e ler o jornal e fazer as palavras cruzadas e assistir programa de fofoca para falar mal de todos e depois assistir ao Provocações.

Garoto esperto esse Sujeito. Apareceu na minha porta, todo cheiroso, com aquele cheiro de banho tomado que (meu Deus!) é tão bom. Com o cabelo penteado de modo a parecer despenteado. Com aquele arzinho moderno, com aquele par bacana de tênis vermelhos que ele tem e que foi o que me fez um dia ir falar com ele (um elogio aos tênis, só eu para me aproximar de alguém por causa disso) e com a mão estendida: "Você vai ter que ficar de mão dada comigo o tempo todo", ele disse. Eu devolvi a ele a caixa de lembranças porque ele pediu que eu ficasse encarregada de criá-las, aos montes, e só boas, e ele ficaria responsável por guardá-las.
 
A sessão foi gostosa. A medida correta de filme e ombro e beijo e filme e escuro e conforto e sofá (não o sofá de fato, só a imaginação dele). E depois, depois de tudo, do cinema e tudo o mais (não quer mesmo que eu conte, né?), ele me levou embora e eu fui dormir, mas confesso que já estava meio sonhando. Ser mulher-mulherzinha de vez em quando compensa, um dia eu acabo com essa história de querer ser mulher-hominho.
 
Ouvi o telefone tocar, já de madrugada. Mas pensei que fosse só sonho. Algumas vezes eu me levantei durante a noite e fui atender, mas nunca era ninguém. Ontem, era alguém. Recado na secretária eletrônica: 
 


"Hoje, Ione, você deve estar dormindo, mas eu não aguentei esperar. Estou acordado até agora e o meu passarinho (aquele que eu contei pra você, que eu vejo, mas ninguém mais vê) está comigo. Ele está na varanda desde a hora que eu cheguei em casa. Olhei muito pra ele, eu sorri, agradeci até. Meu passarinho é uma boa companhia. Peguei a minha Polaroid e tirei uma foto do passarinho. Na verdade, não era uma foto, era um desenho que eu fiz com lápis aquarelável. Recortei o papel como se fosse uma moldura de foto instantânea e acabei de colocar a foto que eu mesmo fiz dentro da nossa caixinha. Era isso, eu só queria te contar, e não queria deixar pra depois. Durma bem. Ou se você escutar isso antes de sair pro escritório, bom dia pra você, porque a minha noite, você fez ser muito boa. Se eu pudesse, colocava essa noite dentro da caixa também. Pensando bem, vou tirar uma foto da lua."

Em contagem regressiva

3... 2... 1 = sábado de manhã em GRU, chovendo horrores, parece, esperamos que venham nos recepcionar com faixas, cartagens e soltar muito balão de gás hélio pra dar problema com os aviões. Melhor que passarinho na turbina, né?

Deixei as encomendas pra última hora e me estressei por, sei lá. 4 horas porque aimedeus e se não der tempo de comprar as coisas pra todo mundo?, mas deu. A gente foi pra Delaware, onde não se paga imposto e compramos uns eletrônicos. Vamos com uma mala gigante, não pra levar coisas, que não ocupam tanto espaço assim, mas pra trazer coisas sensacionais. Espero. Tipo camisetas da Hering e Melissinha e calçola sem costura. E cachaça que meu irmão e meu pai fazem. Muito empolgados pra encher a cara de pastel e caipirinha e kratong tong. Muito felizes de abraçar pessoas e brigar com elas e encher de todo mundo, porque é assim que a gente é na nossa família. Depois a gente faz as pazes em forma de fazer/ganhar uma massagem nas costas (família meio japa, né?) Chazão, tadinho, vai ficar com aquela vizinha que não quer ser minha BFF.  Meu coração fica em pedacinhos esparramados pelo chão de pensar em ficar sem nosso cujinho. Mas ela vai cuidar bem dele e ele adora ela! Abana o rabinho e tudo. Pra gente, ele só abana o rabo quando vai ganhar petisquinho. Mas! Haverá uma Cuquinha pra me consolar e dormir comigo, no lugar mais inconveniente da cama, pra que só ela fique confortável e ninguém mais.

5.4.10

Paixão Fingida - Quarto episódio

Dei um chega pra lá no Sujeito. Meus amigos homens me dizem que as mulheres devem ser menos mulherzinhas e devem ser mais blasé. Não chego a concordar plenamente, mas às vezes é irritante quando a gente se propõe a conversar e sair e mexer no cabelo dos tantos sujeitos por aí e, no fim, tomamos um fora bem dado, daqueles que não se esquecem. Homem é assim: a gente diz "te ligo", ele ouve: "quero casar com você". A gente pergunta: "como vão os seus rins?", ele entende: "anos depois, ainda não esqueci você e quero voltar" (nesse caso, o sujeito consegue enxergar a gente de joelhos). A gente aparece apresentando os amigos pra ele porque eles todos são pessoas bacanas que podem combinar, ele entende: "*odeu, ela quer me fazer entrar pra famíla, tenho certeza de que detrás de um poste sairão pai, mão, irmãos, cunhados e sobrinhos, sem contar avós para me conhecerem, onde será que ela esconde a aliança?". Não dá. Definitivamente, por mais paciente que uma mulher seja, não dá.

Pois o Sujeito andou fazendo isso comigo. Andou dizendo que estávamos indo rápido demais e que ele era jovem. Bom, eu sou jovem também, embora eu esteja convencida de que, num dia de algum porre um pouco mais forte (daqueles em que se diz que se esquece tudo e que ficamos irresponsáveis pelos nossos atos), eu tenha feito algum tipo de pacto e que, num armário lá de casa exista um retrato que envelhece, enquanto eu continuo com a minha cara de menina que tem que apresentar documento de identidade pra poder fazer tatuagem e entrar em danceteria (se eu entrasse em danceterias. Sou tão velha que chamo danceterias de danceterias, imagine. Podia ser pior, eu poderia dizer: "casa noturna" ou "boite").

Pois enchi do Sujeito e pensei que, qualquer que fosse a explicação que eu desse, ele não entenderia. Os moços não costumam entender muita coisa mesmo. Costumam pensar que sabem mais do que a gente sobre o que a gente pensa e sente e resolvem tomar decisões por nós. A gente dá trelas para eles, eles pensam: "Aaaai, que grude. Ela tá apaixonada! Preciso me afastar antes que eu magoe essa moça!". Bom, se for pra magoar, que magoe, que é porque a gente escolheu assim, não o sujeito. Então, quando o Sujeito disse: "estamos indo rápido demais", antes que ele dissesse: "não, eu não vou casar com você", tirei meu timinho de campo e resolvi ir ser feliz em outro canto. Peguei o Igor, puxando pela coleirinha e fomos visitar outras paragens, onde a grama para ele seja mais verdinha.

Mas ontem, cheguei em casa, o Seu José, o síndico do meu prédio que vigia a que horas eu chego em casa, quem eu levo pra casa, a que horas os quens saem da minha casa e com que freqüência eu faço tudo isso (ele também acha que eu não tenho idade nem pra andar sozinha de avião), interfonou.

-- Boa noite, Ione.
-- Boa noite, Seu José.
-- Tem aqui um pacote pra você.
-- Pacote? É minha encomenda do Submarino?
-- Parece que não.
-- Da Americanas?
-- Não.
-- Livraria Cultura?
-- Não, não é nada disso. Não chegou pelo correio.
-- Não? Mas como é esse pacote?
-- É uma caixa e tem um laço
-- Tem cartão?
-- Não. Tô indo levar pra você.

Pois o Seu José me trouxe a tal caixa. Resolvi comer uma maçã enquanto fuçava. Abri a tampa e encontrei: um relógio parado, com o pino puxado. Olhei a hora, ela não me dizia nada. Uma entrada de um filme, no Espaço Unibanco, de uma sessão passada. O número do meu telefone anotado com a minha letra, num pedaço de papel rasgado, o verso de algum desses panfletos que oferecem leitura de búzios, em que estava anotado. Um caderno de capa dura de papel reciclado com algumas poesias copiadas a mão. Tinha Manoel de Barros, Hilda Hilst e Adélia Prado. Tinha Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Na última página, também a mão, uma observação: "Fernando Pessoa não combina com o que eu quero dizer". Uma pétala de rosa (das minhas, das que guardo nos meus livros) que eu dou de presente para algumas pessoas. Tinha um brinco meu, que eu jurava que eu tinha perdido. Tinha um papel de presente (que eu dei). Tinha o guardanapo de um restaurante bacana que eu conheci. E um bilhete:

“Te convido a colocar mais coisas nessa nossa caixa de memórias".

Assinava: Sujeito.