5.4.10

Paixão Fingida - Quarto episódio

Dei um chega pra lá no Sujeito. Meus amigos homens me dizem que as mulheres devem ser menos mulherzinhas e devem ser mais blasé. Não chego a concordar plenamente, mas às vezes é irritante quando a gente se propõe a conversar e sair e mexer no cabelo dos tantos sujeitos por aí e, no fim, tomamos um fora bem dado, daqueles que não se esquecem. Homem é assim: a gente diz "te ligo", ele ouve: "quero casar com você". A gente pergunta: "como vão os seus rins?", ele entende: "anos depois, ainda não esqueci você e quero voltar" (nesse caso, o sujeito consegue enxergar a gente de joelhos). A gente aparece apresentando os amigos pra ele porque eles todos são pessoas bacanas que podem combinar, ele entende: "*odeu, ela quer me fazer entrar pra famíla, tenho certeza de que detrás de um poste sairão pai, mão, irmãos, cunhados e sobrinhos, sem contar avós para me conhecerem, onde será que ela esconde a aliança?". Não dá. Definitivamente, por mais paciente que uma mulher seja, não dá.

Pois o Sujeito andou fazendo isso comigo. Andou dizendo que estávamos indo rápido demais e que ele era jovem. Bom, eu sou jovem também, embora eu esteja convencida de que, num dia de algum porre um pouco mais forte (daqueles em que se diz que se esquece tudo e que ficamos irresponsáveis pelos nossos atos), eu tenha feito algum tipo de pacto e que, num armário lá de casa exista um retrato que envelhece, enquanto eu continuo com a minha cara de menina que tem que apresentar documento de identidade pra poder fazer tatuagem e entrar em danceteria (se eu entrasse em danceterias. Sou tão velha que chamo danceterias de danceterias, imagine. Podia ser pior, eu poderia dizer: "casa noturna" ou "boite").

Pois enchi do Sujeito e pensei que, qualquer que fosse a explicação que eu desse, ele não entenderia. Os moços não costumam entender muita coisa mesmo. Costumam pensar que sabem mais do que a gente sobre o que a gente pensa e sente e resolvem tomar decisões por nós. A gente dá trelas para eles, eles pensam: "Aaaai, que grude. Ela tá apaixonada! Preciso me afastar antes que eu magoe essa moça!". Bom, se for pra magoar, que magoe, que é porque a gente escolheu assim, não o sujeito. Então, quando o Sujeito disse: "estamos indo rápido demais", antes que ele dissesse: "não, eu não vou casar com você", tirei meu timinho de campo e resolvi ir ser feliz em outro canto. Peguei o Igor, puxando pela coleirinha e fomos visitar outras paragens, onde a grama para ele seja mais verdinha.

Mas ontem, cheguei em casa, o Seu José, o síndico do meu prédio que vigia a que horas eu chego em casa, quem eu levo pra casa, a que horas os quens saem da minha casa e com que freqüência eu faço tudo isso (ele também acha que eu não tenho idade nem pra andar sozinha de avião), interfonou.

-- Boa noite, Ione.
-- Boa noite, Seu José.
-- Tem aqui um pacote pra você.
-- Pacote? É minha encomenda do Submarino?
-- Parece que não.
-- Da Americanas?
-- Não.
-- Livraria Cultura?
-- Não, não é nada disso. Não chegou pelo correio.
-- Não? Mas como é esse pacote?
-- É uma caixa e tem um laço
-- Tem cartão?
-- Não. Tô indo levar pra você.

Pois o Seu José me trouxe a tal caixa. Resolvi comer uma maçã enquanto fuçava. Abri a tampa e encontrei: um relógio parado, com o pino puxado. Olhei a hora, ela não me dizia nada. Uma entrada de um filme, no Espaço Unibanco, de uma sessão passada. O número do meu telefone anotado com a minha letra, num pedaço de papel rasgado, o verso de algum desses panfletos que oferecem leitura de búzios, em que estava anotado. Um caderno de capa dura de papel reciclado com algumas poesias copiadas a mão. Tinha Manoel de Barros, Hilda Hilst e Adélia Prado. Tinha Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Na última página, também a mão, uma observação: "Fernando Pessoa não combina com o que eu quero dizer". Uma pétala de rosa (das minhas, das que guardo nos meus livros) que eu dou de presente para algumas pessoas. Tinha um brinco meu, que eu jurava que eu tinha perdido. Tinha um papel de presente (que eu dei). Tinha o guardanapo de um restaurante bacana que eu conheci. E um bilhete:

“Te convido a colocar mais coisas nessa nossa caixa de memórias".

Assinava: Sujeito.

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