26.3.10

Paixão fingida - Sétimo episódio

----- Original Message ----- 
From: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br

To: Ioney
Sent: Sunday, February 23, 2003 4:29 PM
Subject: Sujeito
Ione,
Não sei bem o que você pensou ontem, quando nos encontramos na balada. Pela sua cara -- e a de suas amigas -- você não deve ter ficado contente, o que seria natural. Você deve ter ficado confusa, como eu próprio estou. Pior: Você deve ter me achado um canalha irremediável e cretino, e você e suas amigas devem ter ficado discutindo sobre como os homens são iguais e cretinos. Tudo a que sempre achei que estaria imune.
Você merece uma explicação. Contarei toda ela, do começo ao fim, arriscando jogar fora o que começava a ganhar forma. Vou contar tudo porque assim me sentirei melhor comigo mesmo. Vamos lá, Sujeito, coragem...
Aquela moça com quem você me viu é a Siriga, minha ex namorada. Nunca contei a você sobre ela, não achava necessário. Cadáveres devem ficar onde estão. O problema todo é que certos cadáveres ainda estão insepultos. Foi o que aconteceu, a Siriga me telefonou, me chamou de apelidos nossos, me lembrou bons momentos. Confesso que estremeci, que esqueci por um instante os porquês de nossa separação.

Acontece que vivemos uma relação intensa. Mais de uma vez achei que ela era a mulher de minha vida. Ficamos alguns anos juntos, compartilhamos sonhos, brincamos com a idéia de ter filhos. Nada disso se esquece facilmente.

Pois naquele momento fraquejei. Decidi ver se os cacos de nosso amor, ainda não varridos por completo, poderiam ser colados, mesmo com muito trabalho. Se houvesse uma chance, teria partido e arriscado. Se não houvesse, os cacos iriam definitivamente para o limbo. O que não poderia acontecer era ficar na dúvida.
Pois fui. Conversei com ela, relembramos o passado. Foram lembranças dolorosas, como aquelas viagens que insistimos em repetir, e vemos que foram boas na primeira vez mas que nunca será do mesmo jeito. Eu estava pensando justamente nestas coisas quando você apareceu. Que não adianta querer repetir o passado, mas vale a pena ir buscar a felicidade em outros lugares, pensava em você.

Quando você apareceu, fiquei feliz, mas só por um segundo. Me dei conta que eu estava no lugar errado e com a compania mais comprometedora do mundo para encontrar você. Não poderia mais chegar amanhã, certo do que queria, e convidar você para iniciarmos de vez nossa história. Não poderia, porque tinha certeza que a partir daquele momento, você desconfiaria de mim.

Fui embora um pouco desolado. Deixei a Siriga em casa, e ela também havia percebido que não fazia mais sentido nós dois juntos. Cheguei em casa, coloquei músicas tristes e decidi escrever. Se há ainda alguma chance, estou apostando ela sendo sincero, mas tenho certeza que, se decidirmos continuar, terá sido a melhor decisão.
Será que ainda temos chance?

Um beijo,
Sujeito.

(25 de fevereiro de 2003) - Encontrar a falta dos episódios (do quarto ao sexto) é que nem encontrar um livro cujas páginas se molharam, borrando uma boa porção. Que triste. Ninguém tem guardado nalgum lugar? Luiz com zê? Algum fã (ui!) do passado?

8 comentários:

  1. Marcos achou pra mim os outros capítulos. Eu sou dã e não sei usar webarchive.

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  2. Tenho muita coisa! Agora falta achar. :P Me cobra por e-mail daqui a tipo uma semana, please? :***

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  3. Quem escreveu a parte do sujeito?

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  4. Sabe que não lembro? Ou foi o Luiz com zê ou o Fernando.

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  5. Argumentos a favor de eu:

    1. Duplo hífen a título de travessão -- que eu sempre uso;
    2. Enumeração de coisas com vírgulas para mostrar amplitude de pensamento: "Ficamos alguns anos juntos, compartilhamos sonhos, brincamos com a idéia de ter filhos."
    3. Temática de lembrança: "Conversei com ela, relembramos o passado. Foram lembranças dolorosas, como aquelas viagens que insistimos em repetir, e vemos que foram boas na primeira vez mas que nunca será do mesmo jeito."
    4. Auto-referência: "Vou contar tudo porque assim me sentirei melhor comigo mesmo. Vamos lá, Sujeito, coragem..."

    Céus, como tenho um estilo reconhecível...

    Saudades,
    Rafa.

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