23.3.10

Paixão fingida - segundo episódio

Igor se sentiu muito mal por ter sido o mote escolhido pelo Sujeito para que ele e eu nos desentendêssemos (ele Sujeito, não ele Igor). Passou a noite toda amuadinho na pequenina varanda do apartamento e, pela manhã, ele se recusou a comer a cuia de cereais com leite que eu lhe ofereci. Ele berrou um pouco também, mas a vizinha ao lado tem um nenezinho novo e eu pedia a ele que tivesse um pouco de consideração. Ele me pediu que o levasse para ver o nenezinho, mas eu lhe expliquei que ele poderia assustar o bebê. Ele não estava acostumado ainda com esse tipo de bicho. Por enquanto, ele só quer saber de fofurices, e um bode não é um bicho propriamente fofo. Ele só saberá quão lindo é o Igor quando crescer e puder falar com ele, até que ele novamente se esqueça da língua dos bichos e não passa a pensar que eu sou doida, como o Sujeito achou.

Fui para o trabalho e já havia um recado, dizendo que o Sujeito me pedia para ligar de volta. O Sujeito tem todos os meus telefones. Sei que isso foi um risco, porque se o Sujeito não me ligasse nunca, eu saberia que foi porque não quis, e ele não poderia usar as desculpas de que meu celular estava sem sinal ou que o telefone de casa estava ocupado. Ele sempre poderia me achar. Que fique claro que foi Sujeito quem me pediu todos os números, eu teria dado somente o número do telefone móvel.

-- Bom dia, eu gostaria de falar com o Sujeito. Ele está?
-- Está sim, quem quer falar?
-- Diga que é a Ione.
(...)
-- Alô, Ione?
-- Oi, Sujeito. Tudo bem? Eu vi o seu recado.
-- É, eu liguei mesmo. Eu queria pedir desculpa.
-- Desculpa pelo quê?
-- Eu te chamei de doida. Você não é doida, eu que dei uma de louco.
-- Bom, tudo bem. O Igor não é mesmo um bichinho de estimação normal.
-- Ele é... simpático. Bom, acho que eu preciso me acostumar com a idéia de que você tem um bode em casa.
-- Tudo bem. Isso acontece, às vezes. Teve um dia, eu ainda trabalhava no outro escritório, o Igor ficou meio doente e eu tive que levar ele comigo. Ele ficou preso numa cordinha no pé da mesa e ficou super quietinho.
-- No escritório? Ninguém no seu trabalho reclamou?
-- Não, Sujeito. Ninguém conseguia ver o Igor. Só eu.
-- Mas eu vi o Igor!
-- Eu sei.
-- Eu vi um bode que não existe?
-- Ele existe, só não é muito fácil de enxergar.
-- Ione, você é doida mesmo. Mas eu também sou.
-- Isso é bom?
-- Me diz uma coisa, você acha acredita em história de fadas?
-- Leio Peter Pan, Grimm e Hans Staden sempre que posso. E O mágico de Oz.
-- Eu adoro os seus sapatos vermelhos. Demorei pra achar alguém que acreditasse em fadas.
-- Obrigada, Sujeito. É elogio?
-- A gente se vê hoje à noite?
-- Eu te ligo.
-- Beijo.
-- Beijo nas crianças.
-- Crianças, Ione?
-- Ah, deixa, é só uma expressão. Tchau, Sujeito.
-- Tchau.

Esse sujeito está melhorando e ganhando pontos. Até que é um bom sujeito. Igor vai ficar bem feliz.

(3 de fevereiro de 2003)

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