6.10.10

Vote no Chazão e ajude outros pãguinhos!






Então que o Curly Tail Pug Rescue está com uma competição: eles estão selecionando fotos para o calendário do ano que vem e o Chazão está na parada! Aí em cima estão as 2 fotos que eu mandei. Para votar nas fotos,  você contribui com só 1 dólar por voto (mas pode contribuir com 1 ou mais votos/dólares se quiser) e todo o dinheiro arrecadado vai para esse pessoal ótimo que ajuda pãguinhos como o Chazão.  É só clicar nesse botãozinho "Chip in" e ir seguindo as instruções. Claro, o objetivo é arrecadar dinheiros pra que eles possam ajudar mais cahorrinhos pompons que nem o Chazão. Só nos últimos 4 ou 5 meses, eles resgataram 39!  Deixa eu contar um pouco mais da história do Chazão e do Curly Tail Pug Rescue.

Cê sabe que faz quase um ano, a gente adotou um cachorrinho pãguinho, né? O Chazão. Chazão teve uma historinha triste: ele tinha medo de ganhar carinho, ele mordia quando a gente tentava abraçar, muito desconfiado de amor, sabe? Chazão chegou em casa ainda com uma alergia bem feia no pescoço, que fez o pelo desaparecer (mas depois cresceu de novo). Quando o Chazão foi resgatado pelo Curly Tail Pug Rescue, ele estava quase em carne viva e, gente, as unhas estavam tão compridas, que estavam fincadas nas almofadinhas das patinhas, com uma infecção bem feia, de modo que ele não conseguia andar direito. Ele tem uma costelinha que ficaassim  um calombinho porque parece que ele  apanhou e aí não sarou direito. Quem é que bate num cachorrinho?, me diga.

Embora o começo da nossa história tenha sido difícil -- juro que achei que era quase impossível "estragar" o temperamento dócil e afetuoso de um pãgui --, com muita mordida, muito desentendimento e desconfiança, a gente treinou o nosso pãguinho sem nunca nem relar a mão pra bater e agora ele é um fofo que só quer saber de dormir com a gente no sofá, de olhar o que a gente está fazendo e, claro, comer, comer, comer. A gente chama nosso pompom de milagrinho do amor: não dá, né?, pra não amar um bichinho que precisa recuperar a fé na humanidade. Peposo, Pepo, Chachi. Então foi assim: Chazão teve que viver 7 anos até a gente se encontrar no mundo: 7 anos de espera por alguém que amasse esse fofo ranzinza. Tem muitas histórias assim de outros pãguinhos abandonados ou resgatados: doentes, velhinhos, ainda filhotes quando o dono não quer mais quando percebe que dá trabalho e não é igual um bonequinho, ou com donos de idade que faleceram ou não podem mais cuidar de seus pomponzinhos. Vote no Chazão e ajude outro pãguinhos!

27.8.10

Coração em pedacinhos

Tchéz, originally uploaded by Menina Dedê.

Ficamos com o coração apertado e nem é porque a coisa é grave. Ele está fazendo xixi com sangue e precisa fazer xixi toda hora. Ontem, logo depois de voltar do passeio das 6 da tarde, já queria sair de novo. Ele nunca pede. Ficou perto da porta, perto do pote onde a gente coloca a guia dele. Dei ossinho, um monte de petisquinhos, coisinhas pra ele se distrair. Mas ele, o montro! da comidinha, foi superblasé. Lambeu e ficou feliz mas foi pra porta de novo. Aí meu coração quebrou de leve e levei nosso pompom pra passear às 9, coletei xixi num potinho pra levar no veterinário (o menino mais lindo do mundo tá indo pra casa pra pegar o pãgucho agorinha). Às 11 da noite, ele não aguentou mais esperar e fez xixi em casa, na parede perto da porta. Tadinho. Nunca na vidinha dele  com a gente aconteceu. Ele achou que eu ia ficar brava e deu uma rosnadinha pra  né?, se fosse preciso, antes da bronca que nunca veio. Acordamos de manhã e achamos outro presente perto da porta.  De manhã só um xixizinho e várias tentativas: a patinha no ar, esperando, esperando, fazendo força, só pra sairem umas gotinhas de sangue. Queria explicar pra que não tem problema. Que ele tá doente e a gente entende. Que tudo bem fazer pipi em casa, na parede, que tudo bem, que hoje ele vai no veterinário e vão dar um remedinho e à noite ele vai estar se sentindo muito, muito melhor. Tão chatinho esse diarinho de doença. Mas fico com tanto dó que ele não entende o que eu digo.

20.8.10

16.8.10

Chazam


Chazam, originally uploaded by Menina Dedê.

18.6.10

Meu herói

De manhã, antes de vir pro trabalho, meu irmão me ligou, com voz chorosa. A gente quase não se fala no telefone, porque eu tenho preguiça do Skype e quando eles me ligam o telefone toca 3 vezes e não dá tempo de atender. Já fiquei preocupada, porque minha mãe andou internada na UTI e faz uma semana que meu pai não me manda e-mail com notícias. Eu sei, eu tenho que ligar pra eles. Enfim. Meu irmão me ligou, eu no elevador. E não dá pra escutar direito e eu já, né?, gente!, que foi que aconteceu? Chego no lobby do prédio e meu irmão me diz: "Só liguei pra te dizer que o Saramago morreu. Ontem à noite, na casa dele." Como se fora, né?, uma pessoa da família. 

Eu conheci Saramago lendo O Memorial do Convento pra FUVEST. Só por isso valeu ter prestado vestibular. E fui lendo e lendo, lendo. Deu pro meu irmão, dei pro meu pai ler também. Fui a um evento na Livraria Cultura com meu pai pra vê-lo falar sobre as coisas do mundo tão lindas e importantes de que ele falava. De justiça social, mas sobretudo de compaixão.  Lotadaço, a gente ficou de fora, de pé, assistindo por um telão. Acho que meu pai chorou. Fui a outro evento no SESC em que o Raul Cortez lia passagens de um livro e depois apartei a mão do Saramago. Fiquei muda, o que eu ia falar pra ele? Oi, Saramago, você é meu escritor herói? Oi, Saramago, você me parece ser pessoa boníssima. Apartei a mão dele e ele autografou um livro pra mim. Imagina que tesouro. Ficou esse mundo mais vazio, menos poético, menos cheio de frases longas, cheias de vírgulas, e de sentimento. Um mundo cheio de livros e de ideias e ideais. Pilar: um beijo pra você.

* * * 

Isso eu escrevi faz anos, quando ainda escrevia coisa com coisa. Ou coisa só.

* * *

Anteontem eu sonhei com a minha avó Isaura Teixeira da Costa, que me assava pão-de-ló e salpicava açúcar e canela por cima. Era o meu presente quando eu ia visitá-la no interior. Quando ela ficou mais velhinha, ela se esqueceu de que o meu presente era pão-de-ló e passou a assar bolos de fubá, que não era os meus preferidos, mas ainda eram para mim. 

Uma vez minha avó me fez uma boneca de pano. Ela não enxergava bem e as mãos tremiam e eu consigo até imaginar a minha avó sentada na máquina de costura cortando retalhos e desenhando os olhos e a boca. Quando eu cheguei, ela disse: Fiz uma boneca para você. Mas os olhos eram tortos e os braços e pernas eram cada um de um tamanho e a boca era borrada. E eu disse que não queria, que a boneca era feia. Minha avó tinha cheiro de velhinha, tinha cheiro de avó. E ela dizia pra mim que eu não gostava dela e eu nunca, nunca disse que eu gostava tanto, apesar de que, uma vez, tenha saído com o meu pai para ir comprar pra ela um presente. Achei que o presente poderia significar: vó, eu gosto sim.

No meu sonho, minha avó era enorme. Ela era mesmo muito grande e eu olhava pra ela e eu dizia que me desculpasse, porque nunca eu lhe tinha dito que eu gostava dela assim. E ela me abraçava com olhos de avó e não me dizia nada. Ela me abraçava com braços de avó. 

Ao menos nos sonhos a gente é capaz de dizer o que nunca soube. Mas seria melhor que eu não tivesse esperado pelo sonho, nem tivesse levado tantos anos, muito mais tantos, esperando por esse.

Sobre o assunto, pequena seleta de José Saramago. Surpreendi-me com a coincidência desses trechos com o que venho lhes contando sobre as palavras. Faz muito tempo que li esse livro, talvez tenha sido em meados do ano passado ou até antes. E as palavras que li e os pensamentos que elas formaram em minha cabeça permaneceram sendo pensados sem que eu soubesse, até que eu tivesse finalmente uma manhã de segunda-feira, com chuva e trânsito, para que, de pensamentos escondidos, transformassem-se finalmente em idéias.

"Um dia compreenderás, Espero bem que sim, mas não com palavras, por favor, estou farta de palavras. (...) É o mesmo problema de sempre, se não falamos somos infelizes, e se falamos densentendemo-nos,(...)" pp. 266-267
"Adiantar-nos, por temerárias suposições, ou por aventurosas deduções, ou, pior ainda, por inconsideradas adivinhações, ao que eles pensaram, não seria, em princípio, se considerarmos a presteza e o descaro com que, em relatos desta natureza se desrespeita o segredo dos corações, não seria, dizíamos, tarefa impossível, mas, uma vez que esses pensamentos, mais cedo ou mais tarde, terão de vir a expressar-se em actos, ou em palavras que a actos conduzam, pareceu-nos preferível passar adiante e aguardar tranquilamente que sejam os actos e as palavras a manifestar os pensamentos."283
"Quanto a imaginar como é possível juntarem-se em uma pessoa sentimentos tão contrapostos como, no caso que temos vindo a apreciar, a mais profunda das alegrias e o mais pungente dos desgostos, para depois descobrir ou criar aquele único nome com que passaria a ser designado o sentimento particular consequente a essa junção, é uma tarefa que muitas vezes foi empreendida no passado e que em cada uma delas se resignou, como um horizonte que se vai incessantemente deslocando, a não alcançar sequer o limiar da porta das inefabilidades que esperam deixar de o ser. A expressão vocabular humana não sabe ainda, e provavelmente não o saberá nunca, conhecer, reconhecer e comunicar tudo quanto é humanamente experimentável a sensível. Há quem afirme que a causa principal desta seriíssima dificuldade reside no facto de os seres humanos serem no fundamental feitos de argila, a qual, como as enciclopédias prestimosamente nos explicam, é uma rocha sedimentar detrítica formada por fragmentos minerais minúsculos, do tamanho de um/duzentos e cinquenta e seis avos de milímetro. Até hoje, por mais voltas que se dessem à linguagens, não se conseguiu achar um nome para isso." 302-303
SARAMAGO, José. A caverna, São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

9.6.10

Paixão fingida - Oitavo episódio


Leia, obviamente, de baixo para cima.

E, por favor, xingue o Fulaninho. Eu ia chamar de Sujeito, mas estou com vontade de ofender, então resolvi chamar de Fulaninho.

De: Ioney XXX
Para: Amigo da Ioney
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:25
Assunto: RES:RES:RES:RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Consigo até te imaginar vestindo terno riscado, com lenço no bolso, as bochechas cheias de algodão, uma fumaça na sala, contra-luz. O Sujeito na sua frente, morrendo de medo da sua cara ameaçadora e você quase gritando, mas sem precisar (o que dá mais medo ainda): MACARRONI! 

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De: Amigo da Ioney
Para: Ioney XXX
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:23
Assunto: RES:RES:RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Pois é, tipo aqueles mafiosos italianos, que conquistam a confiança da pessoa e depois aproveitam.
Rimar com Ioney é não é fácil.
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De: Ioney XXX
Para: Amigo da Ioney
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:20
Assunto: RES:RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Macarroni?
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De: Amigo da Ioney
Para: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br
cc: Ioney XXX
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:15

Assunto: RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

ora, ora, ora,
pro seu latim eu não dou bola
sou amigo da Ioney
e a defendo dos macarroni
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De: Ioney XXX
Para: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br
cc: Amigo da Ioney
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:00
Assunto: RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Isso mesmo, Amigo da Ioney, dá nele! Dá nesse Sujeitinho!
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De: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br
Para: Amigo da Ioney
Enviada: Fevereiro 26, 2003 10:12
Assunto: RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Quem é você, seu sujeitinho, que pensa que pode mandar uma mensagem ameaçadora dessas?
Ah, eu estou morrendo de medo.
Sempre tive medo de estrofes. Muito mais de rima rica.
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De: Amigo da Ioney
Para: Sujeito - Su-jei-to
Enviada: Fevereiro 25, 2003 16:57
Assunto: Seu, seu, seu Sujeito!

Sujeito ladrão de caixinhas
trate bem a minha amiga
senão eu te bato na barriga
e te encho de riminhas
* * *

Por algum estranho motivo, Sujeito me manda cópias ocultas dos emails que recebe dos meus amigos. Não, Sujeito, eu não vou te defender (pelo menos por enquanto). E não, eu não estou indignada com o fato de as pessoas mandarem mensagens ameaçadoras para você.

8.6.10

Paixão fingida - Episódio Sete e Meio

Se eu tivesse um anel de super gêmeos, eu ia dar o outro que faz par com esse anel para alguma amiga minha, e eu diria: Na forma de uma Meg Ryan de gelo! Mas não, eu não tenho esse anel e agora tenho que resolver se:

(a) filtro os e-mails do Sujeito;
(b) peço de volta a caixa de lembranças porque eu não suporto pensar que ele terá lembranças minhas;
(c) desanco o Sujeito e uso todos os palavrões que eu aprendi com os meus irmãos mais velhos;
(d) ajo como uma mulherzinha: confusinha que só vendo, mas com uma predisposição para desculpar e tentar de novo, que é indescritível e inexplicável; ou
(e) n.d.a.

O que faço? O que é que eu faço?

P.S. Não é bonitinho como ele sabe separar sílabas? Su-jei-to. Aliás, como estou morrendo de raiva dele, no momento, se quiser, escreva para ele, nesse endereço  (abaixo) e xingue de todos os nomes que quiser. De preferência, identifique-se como sendo meu amigo.
 ***
Nota de atualização: Obviamente, o e-mail do Sujeito não está mais em uso. Entonces, nem adianta tentar, tsá?

28.5.10

Paixão finginda - Sexto episódio

Meninas têm dessas coisas de quererem fazer a famosa girls’ night out. E vão todas juntas e elas se encontram na casa de uma delas e fazem todas essas coisas que mulheres fazem: de ligarem incessantemente umas para as outras e perguntarem que roupa elas devem vestir, se a outra vai de saia ou vai de jeans, de salto ou de tênis. E vão para a casa da outra e pedem aquele perfume emprestado ou aquela presilha que elas sempre quiseram usar. Enfim, todas essas coisas bobinhas que são tão divertidas e tão bobinhas (mais bobinhas que divertidas). Pois fomos. Era sábado, eu tinha resolvido que essa história de dar um tempo desses programas de gente jovem não podia mais continuar e lá fomos nós -- todas as meninas lindas, cheirosas e bem vestidas e muito animadas (eu, na medida da minha força, tanto quanto me foi possível, o que não era muito).

E o lugar era pequeno e abafado, com o som muito alto, e pra dizer a verdade, não era mesmo o meu tipo de lugar. Esses lugares em que se vai e todos ficam olhando pra você e medindo tudo. Sim, eu uso óculos e tenho cara de nerd, vai encarar? Mas como eu sou essa pessoa que não liga muito pra isso, comecei a fazer o que eu sempre faço em lugares assim e dancei a minha dancinha, que longe de ser uma dancinha charmosa, é engraçada demais e faz todo mundo rir e e rir e pronto, éramos amigas nos divertindo na balada.

Éramos. Porque de repente, não mais que de repente, avisto o Sujeito. O Sujeito todo lindo como ele é, e eu já imaginava como ele estava tão cheiroso como ele sempre é. Confesso que minha boca secou e tive uma iniciozinho de taquicardia, essas coisas que a gente sente, essas emoções que a gente tem perto de moços que interessam a gente. E pensei: "vou parar de frescura com o Sujeito. Eu gosto dele, por que continuar blasé, se eu não sou blasé de verdade?" -- isso tem explicações outras, mas não cabe falar sobre elas nesse momento. E tendo pensado isso, tendo pensado em como eu queria era ir logo dar um beijo no Sujeito e dizer coisas bonitas sobre a nossa caixinha, vou andando até ele.

Mas paro no meio do caminho. Agora eu avistava não só o Sujeito, mas o Sujeito com uma moça. Uma moça bonita, aliás, e que sabia dançar dancinhas que não eram engraçadas como a minha, ao contrário. Uma moça que olhava pra ele e ele sorria e pegava na mão dela e apertava com força. As mulheres notam detalhes, sabe? "Siriga!", eu pensei, "siriga e sirigo -- ele é muito sirigo!". Mesmo assim, penso que devo ir falar com ele, deixá-lo saber que eu o tinha visto. E chego no Sujeito e digo: "Oi, tudo bem? Na verdade, eu só quis vir me despedir, eu tô indo embora.". E lá fica o Sujeito com cara de tacho, com cara de bobo, com cara de "ops, fui descoberto". Mas eu digo esse meu tchau e vou embora, e não paro quando o Sujeito me puxa pelo ombro e chama meu nome, o Sujeito quer dizer alguma coisa e eu não deixo. Minhas amigas logo chegam perto e dizem pra ele ir embora. Meninas são assim, uma pequena mafiazinha.

Foi isso. Depois de passarinho e caixa com laço e cineminha e tudo, encontrei Sujeito com outra numa balada.

7.4.10

Paixão fingida - Quinto episódio

Pois considerando um conselho aqui, outro ali, resolvi dar uma chance ao Sujeito e fomos ao cinema. O filme pouco importa. Na verdade, ele tomou o cuidado de escolher um que não parecesse inteligente demais -- de maneira que tivéssemos que realmente prestar atenção no roteiro e em tudo --, nem fosse excessivamente água com açúcar -- o que me faria achá-lo bobo. Mas cinemas são esses lugares que parecem ser seus amigos. Você entra no cinema e ele não lhe é nada estranho, é muito familiar, é como se fosse ficar escarrapachado no sofá da casa do seu melhor amigo, aquele amigo que você procura para não fazer nada com ele. Para ver tv e tomar Coca-Cola (light com gelo e limão -- em substituição ao querido guaraná diet com gelo e laranja -- resolvi dar um tempo dele para melhorar a nossa relação desgastada) e ler o jornal e fazer as palavras cruzadas e assistir programa de fofoca para falar mal de todos e depois assistir ao Provocações.

Garoto esperto esse Sujeito. Apareceu na minha porta, todo cheiroso, com aquele cheiro de banho tomado que (meu Deus!) é tão bom. Com o cabelo penteado de modo a parecer despenteado. Com aquele arzinho moderno, com aquele par bacana de tênis vermelhos que ele tem e que foi o que me fez um dia ir falar com ele (um elogio aos tênis, só eu para me aproximar de alguém por causa disso) e com a mão estendida: "Você vai ter que ficar de mão dada comigo o tempo todo", ele disse. Eu devolvi a ele a caixa de lembranças porque ele pediu que eu ficasse encarregada de criá-las, aos montes, e só boas, e ele ficaria responsável por guardá-las.
 
A sessão foi gostosa. A medida correta de filme e ombro e beijo e filme e escuro e conforto e sofá (não o sofá de fato, só a imaginação dele). E depois, depois de tudo, do cinema e tudo o mais (não quer mesmo que eu conte, né?), ele me levou embora e eu fui dormir, mas confesso que já estava meio sonhando. Ser mulher-mulherzinha de vez em quando compensa, um dia eu acabo com essa história de querer ser mulher-hominho.
 
Ouvi o telefone tocar, já de madrugada. Mas pensei que fosse só sonho. Algumas vezes eu me levantei durante a noite e fui atender, mas nunca era ninguém. Ontem, era alguém. Recado na secretária eletrônica: 
 


"Hoje, Ione, você deve estar dormindo, mas eu não aguentei esperar. Estou acordado até agora e o meu passarinho (aquele que eu contei pra você, que eu vejo, mas ninguém mais vê) está comigo. Ele está na varanda desde a hora que eu cheguei em casa. Olhei muito pra ele, eu sorri, agradeci até. Meu passarinho é uma boa companhia. Peguei a minha Polaroid e tirei uma foto do passarinho. Na verdade, não era uma foto, era um desenho que eu fiz com lápis aquarelável. Recortei o papel como se fosse uma moldura de foto instantânea e acabei de colocar a foto que eu mesmo fiz dentro da nossa caixinha. Era isso, eu só queria te contar, e não queria deixar pra depois. Durma bem. Ou se você escutar isso antes de sair pro escritório, bom dia pra você, porque a minha noite, você fez ser muito boa. Se eu pudesse, colocava essa noite dentro da caixa também. Pensando bem, vou tirar uma foto da lua."

Em contagem regressiva

3... 2... 1 = sábado de manhã em GRU, chovendo horrores, parece, esperamos que venham nos recepcionar com faixas, cartagens e soltar muito balão de gás hélio pra dar problema com os aviões. Melhor que passarinho na turbina, né?

Deixei as encomendas pra última hora e me estressei por, sei lá. 4 horas porque aimedeus e se não der tempo de comprar as coisas pra todo mundo?, mas deu. A gente foi pra Delaware, onde não se paga imposto e compramos uns eletrônicos. Vamos com uma mala gigante, não pra levar coisas, que não ocupam tanto espaço assim, mas pra trazer coisas sensacionais. Espero. Tipo camisetas da Hering e Melissinha e calçola sem costura. E cachaça que meu irmão e meu pai fazem. Muito empolgados pra encher a cara de pastel e caipirinha e kratong tong. Muito felizes de abraçar pessoas e brigar com elas e encher de todo mundo, porque é assim que a gente é na nossa família. Depois a gente faz as pazes em forma de fazer/ganhar uma massagem nas costas (família meio japa, né?) Chazão, tadinho, vai ficar com aquela vizinha que não quer ser minha BFF.  Meu coração fica em pedacinhos esparramados pelo chão de pensar em ficar sem nosso cujinho. Mas ela vai cuidar bem dele e ele adora ela! Abana o rabinho e tudo. Pra gente, ele só abana o rabo quando vai ganhar petisquinho. Mas! Haverá uma Cuquinha pra me consolar e dormir comigo, no lugar mais inconveniente da cama, pra que só ela fique confortável e ninguém mais.

5.4.10

Paixão Fingida - Quarto episódio

Dei um chega pra lá no Sujeito. Meus amigos homens me dizem que as mulheres devem ser menos mulherzinhas e devem ser mais blasé. Não chego a concordar plenamente, mas às vezes é irritante quando a gente se propõe a conversar e sair e mexer no cabelo dos tantos sujeitos por aí e, no fim, tomamos um fora bem dado, daqueles que não se esquecem. Homem é assim: a gente diz "te ligo", ele ouve: "quero casar com você". A gente pergunta: "como vão os seus rins?", ele entende: "anos depois, ainda não esqueci você e quero voltar" (nesse caso, o sujeito consegue enxergar a gente de joelhos). A gente aparece apresentando os amigos pra ele porque eles todos são pessoas bacanas que podem combinar, ele entende: "*odeu, ela quer me fazer entrar pra famíla, tenho certeza de que detrás de um poste sairão pai, mão, irmãos, cunhados e sobrinhos, sem contar avós para me conhecerem, onde será que ela esconde a aliança?". Não dá. Definitivamente, por mais paciente que uma mulher seja, não dá.

Pois o Sujeito andou fazendo isso comigo. Andou dizendo que estávamos indo rápido demais e que ele era jovem. Bom, eu sou jovem também, embora eu esteja convencida de que, num dia de algum porre um pouco mais forte (daqueles em que se diz que se esquece tudo e que ficamos irresponsáveis pelos nossos atos), eu tenha feito algum tipo de pacto e que, num armário lá de casa exista um retrato que envelhece, enquanto eu continuo com a minha cara de menina que tem que apresentar documento de identidade pra poder fazer tatuagem e entrar em danceteria (se eu entrasse em danceterias. Sou tão velha que chamo danceterias de danceterias, imagine. Podia ser pior, eu poderia dizer: "casa noturna" ou "boite").

Pois enchi do Sujeito e pensei que, qualquer que fosse a explicação que eu desse, ele não entenderia. Os moços não costumam entender muita coisa mesmo. Costumam pensar que sabem mais do que a gente sobre o que a gente pensa e sente e resolvem tomar decisões por nós. A gente dá trelas para eles, eles pensam: "Aaaai, que grude. Ela tá apaixonada! Preciso me afastar antes que eu magoe essa moça!". Bom, se for pra magoar, que magoe, que é porque a gente escolheu assim, não o sujeito. Então, quando o Sujeito disse: "estamos indo rápido demais", antes que ele dissesse: "não, eu não vou casar com você", tirei meu timinho de campo e resolvi ir ser feliz em outro canto. Peguei o Igor, puxando pela coleirinha e fomos visitar outras paragens, onde a grama para ele seja mais verdinha.

Mas ontem, cheguei em casa, o Seu José, o síndico do meu prédio que vigia a que horas eu chego em casa, quem eu levo pra casa, a que horas os quens saem da minha casa e com que freqüência eu faço tudo isso (ele também acha que eu não tenho idade nem pra andar sozinha de avião), interfonou.

-- Boa noite, Ione.
-- Boa noite, Seu José.
-- Tem aqui um pacote pra você.
-- Pacote? É minha encomenda do Submarino?
-- Parece que não.
-- Da Americanas?
-- Não.
-- Livraria Cultura?
-- Não, não é nada disso. Não chegou pelo correio.
-- Não? Mas como é esse pacote?
-- É uma caixa e tem um laço
-- Tem cartão?
-- Não. Tô indo levar pra você.

Pois o Seu José me trouxe a tal caixa. Resolvi comer uma maçã enquanto fuçava. Abri a tampa e encontrei: um relógio parado, com o pino puxado. Olhei a hora, ela não me dizia nada. Uma entrada de um filme, no Espaço Unibanco, de uma sessão passada. O número do meu telefone anotado com a minha letra, num pedaço de papel rasgado, o verso de algum desses panfletos que oferecem leitura de búzios, em que estava anotado. Um caderno de capa dura de papel reciclado com algumas poesias copiadas a mão. Tinha Manoel de Barros, Hilda Hilst e Adélia Prado. Tinha Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Na última página, também a mão, uma observação: "Fernando Pessoa não combina com o que eu quero dizer". Uma pétala de rosa (das minhas, das que guardo nos meus livros) que eu dou de presente para algumas pessoas. Tinha um brinco meu, que eu jurava que eu tinha perdido. Tinha um papel de presente (que eu dei). Tinha o guardanapo de um restaurante bacana que eu conheci. E um bilhete:

“Te convido a colocar mais coisas nessa nossa caixa de memórias".

Assinava: Sujeito.

26.3.10

Paixão fingida - Sétimo episódio

----- Original Message ----- 
From: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br

To: Ioney
Sent: Sunday, February 23, 2003 4:29 PM
Subject: Sujeito
Ione,
Não sei bem o que você pensou ontem, quando nos encontramos na balada. Pela sua cara -- e a de suas amigas -- você não deve ter ficado contente, o que seria natural. Você deve ter ficado confusa, como eu próprio estou. Pior: Você deve ter me achado um canalha irremediável e cretino, e você e suas amigas devem ter ficado discutindo sobre como os homens são iguais e cretinos. Tudo a que sempre achei que estaria imune.
Você merece uma explicação. Contarei toda ela, do começo ao fim, arriscando jogar fora o que começava a ganhar forma. Vou contar tudo porque assim me sentirei melhor comigo mesmo. Vamos lá, Sujeito, coragem...
Aquela moça com quem você me viu é a Siriga, minha ex namorada. Nunca contei a você sobre ela, não achava necessário. Cadáveres devem ficar onde estão. O problema todo é que certos cadáveres ainda estão insepultos. Foi o que aconteceu, a Siriga me telefonou, me chamou de apelidos nossos, me lembrou bons momentos. Confesso que estremeci, que esqueci por um instante os porquês de nossa separação.

Acontece que vivemos uma relação intensa. Mais de uma vez achei que ela era a mulher de minha vida. Ficamos alguns anos juntos, compartilhamos sonhos, brincamos com a idéia de ter filhos. Nada disso se esquece facilmente.

Pois naquele momento fraquejei. Decidi ver se os cacos de nosso amor, ainda não varridos por completo, poderiam ser colados, mesmo com muito trabalho. Se houvesse uma chance, teria partido e arriscado. Se não houvesse, os cacos iriam definitivamente para o limbo. O que não poderia acontecer era ficar na dúvida.
Pois fui. Conversei com ela, relembramos o passado. Foram lembranças dolorosas, como aquelas viagens que insistimos em repetir, e vemos que foram boas na primeira vez mas que nunca será do mesmo jeito. Eu estava pensando justamente nestas coisas quando você apareceu. Que não adianta querer repetir o passado, mas vale a pena ir buscar a felicidade em outros lugares, pensava em você.

Quando você apareceu, fiquei feliz, mas só por um segundo. Me dei conta que eu estava no lugar errado e com a compania mais comprometedora do mundo para encontrar você. Não poderia mais chegar amanhã, certo do que queria, e convidar você para iniciarmos de vez nossa história. Não poderia, porque tinha certeza que a partir daquele momento, você desconfiaria de mim.

Fui embora um pouco desolado. Deixei a Siriga em casa, e ela também havia percebido que não fazia mais sentido nós dois juntos. Cheguei em casa, coloquei músicas tristes e decidi escrever. Se há ainda alguma chance, estou apostando ela sendo sincero, mas tenho certeza que, se decidirmos continuar, terá sido a melhor decisão.
Será que ainda temos chance?

Um beijo,
Sujeito.

(25 de fevereiro de 2003) - Encontrar a falta dos episódios (do quarto ao sexto) é que nem encontrar um livro cujas páginas se molharam, borrando uma boa porção. Que triste. Ninguém tem guardado nalgum lugar? Luiz com zê? Algum fã (ui!) do passado?

25.3.10

E se sua vida atual virasse um musical? Diz aí título, sinopse, a canção triunfal e o tema de amor?

Perguntou-me nervocalm.

Dificílimo pra mim responder isso porque, ultimamente, no musical que é a minha vida real, eu escuto rádio que toca Frank Sinatra bem algo ou hit parade de 3 músicas dos anos 80-90 em loop. O pessoal aqui tem probleminha de audição e de educação.

De modo que, pra mim, meu musical ia ter como canção triunfal aquele barulho que faz quando a gente mergulha na piscina e faz blum nos ouvidos. E de quando a gente nada e ouve, de baixo d'água, o barulho das braçadas e pernadas. Ou daquele último pingo de água da torneira quando a gente enche a banheira, antes de prender a respiração e ir pra baixo d'água. Uma coisa meio Hermeto Pascoal.

Tema de amor. Ia ser os roncadinhos de porquinho do Chazão, que embalam meu sono à noite. E o Menino Mais Lindo do Mundo tocando violão, inventando música que soa como se fosse um riacho gelado viajando num tapete de pedrinhas.

Ia chamar "Bons sonhos" ou qualquer coisa meio brega assim. Ia pensar em algum título supermassa e witty, mas não consegui. 


Sinopse: a vida em quase silêncio, sem protetores auriculares: quanta paz ela poderia trazer à alma dessa simples lambedora de envelopes em exílio voluntário na terra dos quase-surdos.
* * * 
Pergunta você também no formulário abaixo. (Quem está lendo por algum reader  não consegue ver a caixinha pra colocar  a pergunta, tá? Tem que clicar e vir ao blogue ou ir direto ao formispringue da Menina Dedê).

Fico muito triste quando não tem pergunta pra mim


Ontem um cliente pro qual eu mando cartas em envelopes que lambo, foi me ajudar a responder um questionário que advogados em um caso conjuminado mandaram pra nós. Tipo estrela da vida inteira, perguntam de um tudo nessa vida, coisarada que eu não tenho como responder porque nunca ninguém perguntou pra ele e não tem na nossa pasta. Liguei pra ele pra pedir pra ele vir ao escritório e cometi a maior gafe no mundo de falantes de espanhol. Chamei o cliente pelo primeiro nome. Ui. E segui o bonde, mas usando usted. Pelo menos. É muito triste me ver falando espanhol. Porque falo melhor que meu tchefe (que só chegou até o presente do indicativo e fala com super sotaque), mas acho que de autoelogio, só dá pra dizer isso mesmo. Fico muito incrível de ver que falo melhor inglês que espanhol. Enfim. Cliente veio me ajudar, chegou apenas 2 horas atrasado e não deu tempo de perguntar nada pra ele. Mas pedi desculpas por ter chamado pelo nome e não pelo sobrenome. Ele achou fofo e agora somos melhores amigos. :) 

A dona dos pãguis cancelou o jantar que a gente tinha marcado pra esse domingo. Terceira vez. Sendo que dessa última vez, ela que escolheu a data, olhando na agenda e tudo. Sabe, gente?, a pessoa tem agenda pra marcar os vários compromissos sociais. Super desisti. Acho que ela está, delicadamente, me dando diquinhas de que não rola. Minha amizade seguirá sendo platônica, mas como ela é babá de cachorro, acho que Chazão vai ficar com ele na semana em que o Menino Mais Lindo do Mundo e eu estivermos ambos no Brasil. Vai ser uma relação estritamente de negócios. A gente não quer que o Chazão fique meguinfeliz. Ele adora essa moça (eu também, ai - rarrarrá, não tem como eu pra fazer um draminha) e até abana o rabo pra ela. Nem por nós ele demonstra esse amor. Aí, plano B, arrumei outro potencial amigo. Um carinha que quer treinar falar português. Achei no classificado na internete. Mandei e-mail, ele respondeu me perguntando quando eu posso. Olhei na minha agenda, pra não haver conflito com meus outros compromissos sociais, e respondi que qualquer dia depois do trabalho ou até fim-de-semana. E agora ele sumiu. Depois vou ligar, mas fico naquela indecisão porque não quero ser stalker brasileira. Vai ver ele só sabe falar português e não entendeu o que eu escrevi (meio em inglês, meio em português). Ou ele sentiu a vibe de desespero: Preciiiiiiiiso. De um amiiiiiiiiigo. Pra chamar. De meeeeeeeu.

Momento glamour: vamos pra Nova Iorque no sábado pra ver a exposição de quadros da minha tia, que chegou na segunda. A versão menos glamurizada é que minha tia está aqui e tem um quiosquinho /stand de artistas brasileiros nessa exposição. Ela incluída. Acho. Depois conto. Ela não deixa de ser chique.

24.3.10

Paixão fingida - Terceiro episódio

Trim-trim-trim -- quem disse que telefone vai ring-ring? Telefone de gringo que faz esse barulho. Deixo tocar um pouco mais, saio correndo do banho. Nunca ninguém me liga, mas quando liga, invariavelmente eu estou no banho ou usando a conexão discada, de maneira que eu nunca sei se alguém de fato me ligou, porque nunca consigo atender. Ou seja, prefiro achar que as pessoas me ligam mas não conseguem falar comigo. Corro em pequenos saltitos, a toalha não impede que corra água para o chão:

-- Alô?
-- Ione?
-- Eu. Quem é? -- eu sabia que era o Sujeito, mas tinha que manter a pose.
-- Oi, é o Sujeito. Está ocupada? Pode falar?
-- Não, pode falar -- eu minto descaradamente.
-- Vamos fazer alguma coisa?
-- Hm, acabei de voltar do italiano. Tô pregada.
-- Que pena. Você já jantou?
-- Comi qualquer coisa na rua -- menti de novo. Se eu comer antes do italiano, só pode ser besteira. Besteira engorda. Logo, eu não comi na rua.
-- E amanhã?
-- Amanhã pode ser. 
-- Ione, quando eu cheguei em casa hoje, tinha um passarinho pousado na minha varanda.
-- É sempre bom receber visitas, né, Sujeito?
-- Eu mostrei pra minha mãe, apontei com o dedo o passarinho na varanda. Ele cantava.
-- Ela gostou?
-- Ela não viu. Nem escutou o passarinho cantando.

Acho que gosto mesmo desse Sujeito. 

(7 de fevereiro de 2003)

23.3.10

Procuro quem me chute a bunda ou entre de sócio comigo.

Listinha das ideias que eu tive pra projetinhos de arte (tem que ler "arte" com o erre raspando, pra dar aquele ar irônico-sarcástico). É favor não roubar minhas ideias. Eu viro bicho com gente copiona (oi galere da 3ª série). Eu preciso de alguém pra me ajudar. Sério. 

  1. Blogue com dicas de como se vestir, tipo aquele programa What Not To Wear, na tevê. Por exemplo: se  você é batatuda, não use meia-calça com desenho. Sei lá, inventei agora. Aí eu ter um desenhinho do certo e do errado.
  2. Blogue com receitas bem fáceis, pra meninos (oi, Rafa!, oi, neutron!), pra pessoas que acabaram de se mudar da casa dos pais, pra quem mora em república, pra quem, doutra forma, cultiva medo de panelas e espátulas ou panelas de pressão. Cês conhecem minhas receitas, né? Tem tag aí do lado pra ver. E elas seriam acompanhadas de um manualzinho ilustrado, em forma de quadrinho. Cês conhecem meus quadrinhos, né? Olha minha flicacaunti.
  3. Meu dicionário ilustrado de espanhol. Olha minha flicacaunti. Tem, sei lá, meia página de palavras.
  4. Um zine tosco. Com assuntos variados e ilustrado. Ou de receitas. Ou diarices. Veja item 5 abaixo.
  5. Diário ilustrado. Estilo Gemma Correll (ela tem flicacaunti; procura, tá?, tô com preguiça de googlar e lincar). Ela é a gênia que inventou uma camiseta com desenho de pãgui que diz: "Pugs not drugs". Preciso muito. O fato de eu precisar muito dessa camiseta consome vários minutos do meu dia. Todos os dias.
  6. Anotar em pedacinhos de papel uma coisa legal/bonita/cheirosa/emocionante/bacaninha/gostosa que eu vi/fiz/cheirei/li/comi. Uma por dia. Só uma. Guardar num potinho pra ler depois de um tempão.
  7. Uma foto por dia ou um dia na minha vida na minha flicacaunti. Tenho até uma câmera decente.
  8. Tinha também o projeto do diário que ia passar de mão em mão, pelo correio, e aí eu ia tirar fotos ou digitalizar as imagens de cada contribuição. Acabou o projeto quando todo mundo reclamou que não tinha dinheiro pra mandar o caderno pra próxima pessoa e quando a segunda pessoa que ia brincar ficou com o caderno por, tipo, meeeeeses, e não fez nada.
Criei, entretando entretanto, duas contas de formispringue: uma pra você fazer perguntas pra mim (porque eu sou legal e você quer ser my BFF) e uma pra você poder pedir conselho pra um(a) doutor(a) leigo(a) e anônimo(a) e muito sensato(a) - rerrê - e melhorar sua vida. Mas esses projetinhos não contam porque não são de arte (com o erre rasgando a goela, não esquece). 

Quem quer ser o dono do pé que vai bater na minha bunda e me dar incentivo pra fazer um dos projetinhos? Do primeiro desisti, porque não tenho capacidade de desenhar os exemplinhos de certo e errado. Se não quiser ser a pessoa chutante, pode entrar de socidade e fazer alguma coisa comigo. Alguém?

Paixão fingida - segundo episódio

Igor se sentiu muito mal por ter sido o mote escolhido pelo Sujeito para que ele e eu nos desentendêssemos (ele Sujeito, não ele Igor). Passou a noite toda amuadinho na pequenina varanda do apartamento e, pela manhã, ele se recusou a comer a cuia de cereais com leite que eu lhe ofereci. Ele berrou um pouco também, mas a vizinha ao lado tem um nenezinho novo e eu pedia a ele que tivesse um pouco de consideração. Ele me pediu que o levasse para ver o nenezinho, mas eu lhe expliquei que ele poderia assustar o bebê. Ele não estava acostumado ainda com esse tipo de bicho. Por enquanto, ele só quer saber de fofurices, e um bode não é um bicho propriamente fofo. Ele só saberá quão lindo é o Igor quando crescer e puder falar com ele, até que ele novamente se esqueça da língua dos bichos e não passa a pensar que eu sou doida, como o Sujeito achou.

Fui para o trabalho e já havia um recado, dizendo que o Sujeito me pedia para ligar de volta. O Sujeito tem todos os meus telefones. Sei que isso foi um risco, porque se o Sujeito não me ligasse nunca, eu saberia que foi porque não quis, e ele não poderia usar as desculpas de que meu celular estava sem sinal ou que o telefone de casa estava ocupado. Ele sempre poderia me achar. Que fique claro que foi Sujeito quem me pediu todos os números, eu teria dado somente o número do telefone móvel.

-- Bom dia, eu gostaria de falar com o Sujeito. Ele está?
-- Está sim, quem quer falar?
-- Diga que é a Ione.
(...)
-- Alô, Ione?
-- Oi, Sujeito. Tudo bem? Eu vi o seu recado.
-- É, eu liguei mesmo. Eu queria pedir desculpa.
-- Desculpa pelo quê?
-- Eu te chamei de doida. Você não é doida, eu que dei uma de louco.
-- Bom, tudo bem. O Igor não é mesmo um bichinho de estimação normal.
-- Ele é... simpático. Bom, acho que eu preciso me acostumar com a idéia de que você tem um bode em casa.
-- Tudo bem. Isso acontece, às vezes. Teve um dia, eu ainda trabalhava no outro escritório, o Igor ficou meio doente e eu tive que levar ele comigo. Ele ficou preso numa cordinha no pé da mesa e ficou super quietinho.
-- No escritório? Ninguém no seu trabalho reclamou?
-- Não, Sujeito. Ninguém conseguia ver o Igor. Só eu.
-- Mas eu vi o Igor!
-- Eu sei.
-- Eu vi um bode que não existe?
-- Ele existe, só não é muito fácil de enxergar.
-- Ione, você é doida mesmo. Mas eu também sou.
-- Isso é bom?
-- Me diz uma coisa, você acha acredita em história de fadas?
-- Leio Peter Pan, Grimm e Hans Staden sempre que posso. E O mágico de Oz.
-- Eu adoro os seus sapatos vermelhos. Demorei pra achar alguém que acreditasse em fadas.
-- Obrigada, Sujeito. É elogio?
-- A gente se vê hoje à noite?
-- Eu te ligo.
-- Beijo.
-- Beijo nas crianças.
-- Crianças, Ione?
-- Ah, deixa, é só uma expressão. Tchau, Sujeito.
-- Tchau.

Esse sujeito está melhorando e ganhando pontos. Até que é um bom sujeito. Igor vai ficar bem feliz.

(3 de fevereiro de 2003)

22.3.10

Em feveireiro ainda estava fazendo frio:

Tentei fazer as figurinhas ficarem no meinho mas não consegui. Me encheu os pacová e desisti e vai ficar feio mesmo. Fevereiro foi um mês frio -- ontem estava calor: saí de Havaianas e bermuda durante o dia. Terminei a trilogia do Brent Weeks que  foi ficando cada vez mais fantasiosa e dependente de mágica. Aí foi me dando um cansaço e, bom, li tudo porque não dá pra ficar sem terminar. Saudade do Kyler, o personagem principal: um matador com coração bom. Ui. *Suspiros*. É que, especialmente o terceiro livro, foca muito nos outros personagens e vira meio que Sr. dos Anéis, no sentido de que a gente vai acompanhando a história por diversos ângulos. O que não é ruim (vide o Senhor dos Anéis ou o GGRM), mas é que os outros personagens não me interessavam muito.

Teve também esse livro do Declan Hughes, bem Sessão da Tarde. Se você me perguntar detalhes, não vou lembrar, mas a história é ouquei. Escolhi esse porque o autor ganhou prêmio de melhor livro ou  autor, não lembro, de mistério. E porque a história é na Irlanda e eu volta e meio tento ler histórias na Irlanda e Inglaterra, porque os autores de lá têm um estilo diferente de escrever. Tipo a moça que escreveu  In the Woods: muitos coraçõezinhos. Também teve mais Connelly e atire a primeira pedra e levante a mão quem é capaz de não gostar do Harry Bosch, o detetive personagem principal de um monte de livros do Connelly. Amo. Porque vou seguindo como se fosse seriado.

Dennis Lehane escreveu um pouco pra série da HBO, The Wire, que é beeem legal. Aí peguei dois livros de dois autores da série. Um chamado Lush Life, do Richard Price, que eu não consegui ler por causa da linguagem, bem de rua, e do ritmo, meio televisiva demais pra mim. Esse livro do Dennis Lehane, na verdade, tem duas histórias: A drink before the war e Darkness take my hand. Dois investigadores particulares tem uma agência com escritório numa sala emprestada em Boston. Patrick Kenzie e Angela Gennaro são amigos de infância. Claro que ela é linda, claro que ele é gostável, claro que já tiveram um algo mais no passado. Agora ela é casada com outro amigo de infância, um alcoólatra que bate nela. Lógico que tem um romancezinho pra gente torcer. O força bruta da história é outro amigo deles de infância, que amamamamama os dois, um sujeito envolvido com tráfico de armas e bem criminosão. Também é Sessão da Tarde, mas como eu gosto de seguir personagens e tem mais livros com o PK e a AG, fui lendo. 

E aí, aimeudeus, voltei a ler fantasia. Essa trilogia da Robin Hobb (sou muito fã), Soldier Son (O filho soldado), conta a vida do Nevare Burvelle, um menino cujo pai era soldado mas agora faz parte da nova nobreza. O primogênito de um nobre vai ser o herdeiro das terras, o segundo, soldado, o terceiro, padre. As meninas, claro, casam-se com rapazotes que tragam vantagens político-econômicas pra família. O pai do Nevare resolve treiná-lo desde criança. Como parte do treinamento, ele passa uns dias com um ex-guerreiro de um povo que antes usava mágica, mas que foi conquistado pelo rei. E tem uma experiência xamânica. O primeiro livro é basicamente sobre isso. O segundo, Forest Mage, é sobre o Nevare na academia de cavaleiros, em que ele começa a sentir mais fortemente os efeitos da mágica com que entrou em contato quando teve a experiência xamânica. Os livros, juro, parece assim uma mistura de fantasia com Dickens. Não acontece muita coisa e é muito rico em detalhes. E são compriiiiidos. Amei com mil coraçõezinhos. Do terceiro não vou falar nada porque eu li em março, então você vai ter que esperar mais um pouco. :)


Menina's book montage

The Black Ice
A Drink Before the War/Darkness, Take My Hand
Beyond the Shadows
The Wrong Kind of Blood: An Irish Novel of Suspense
Forest Mage
Shaman's Crossing
Shadow's Edge


Menina's favorite books »

17.3.10

Aí, lógico que me empolguei fazendo um me-adiciona, e ctrl+c ctrl+v um linque,

Perdi tudo o que eu tinha escrito aqui. Que eu continuo acalentando o sonho de fazer amigos. Que morem aqui também. Pra eu ir tomar uma cervejinha e ir reclamar de como todo mundo me irrita, como tem cliente burro e como lamber envelopes às vezes não é legal. Sou elitista, descobri isso. Defendo a elite do saber. Rarrarrarrá! Me achando sabida. Ai-ai. Pode tacar pedras. Embora eu saiba que o que importa é ser uma pessoa do bem (ou tentar ser) e evitar que o coração se apelude, fato é que eu não consigo criar laços com pessoas que insistem em confundir espanhol com hispânico, ou cujo interesse quase exclusivo seja Am&rican Id0l ou a paleta de cores das roupas pra padrinhos e madrinhas no casamento.

Outro dia me perguntaram no escritório: "Por que lula vem em anéis?". ô_Ô Tô pedindo muito quando eu acho que a pessoa que, né?, foi pra escola, ensino médio e tal, tenha em sua mente a figura de uma lula que ela viu num livro de Biologia? Não estou pedindo pra ela me dizer que lula é um molusco cefalópode, pra falar timina-guanina-citosina, ou pra desenhar um vírus. Só pra saber como é uma lula. Por fora. Tipo o Bob Esponja? Que tem um amiguinho lula? Não? Também me perguntaram se eu achava que o mundo ia acabar e como eu disse que não, responderam: "Mas como? E os tsunamis? E os terremotos? Sinal do fim do mundo! Os cientistas estão dizendo que a Terra vai inclinar num grau xis e cabum!". ô_Ô Aí expliquei sobre as camadas da Terra, as placas tectônicas, a migração dos continentes, vulcões, lava, blablablá. Sou muito nãrdi? MMLdM acha que é pedir muito: quem nem todo mundo gostava de ir pra escola ou teve pais bacanas que incentivaram a curiosidade, o hábito da leitura, a fazer perguntas sobre o reino dos animais, dos vegetais e dos minerais, ou teve professores qualificados e interessados em ensinar de fato. Tá certo. Eu, por exemplo, nunca mais aprendi matemática depois que tirei 5 numa prova da 6ª série com a professora Kimi. No fundo, eu entendo tudo isso. Mas também tem uma questã sobre a grade curricular daqui que -- não pesquisei a fundo -- me parece mais superficial que a do Brasil. E pra ir pra faculdade, o aluno faz uma prova que é padrão, mas só cai inglês, vocabulário, e matemática, formulinhas. Nata, né?, da sociedade. Criança que cresceu com irmão mais velho lendo Monteiro Lobato pra ela antes de dormir e adorando a Enciclopédia Conhecer, coleção Os Bichos e mapinhas em papel vegetal. Preciso lutar com todas as forças do meu ser pra não julgar. Não quero julgar. Quero aceitar e abraçar a bondade e não ligar pra falta de cultura geral que impera e esmaga meu interesse por uma pessoa que doutra forma seria uma boa amiga pra mim. Suspiros.

Eu me prometi que iria aos encontros de pessoas que querem treinar espanhol. Pra conhecer pessoas e fazer amigos. Mas é aos sábados de manhã e eu preciso dormir. Muito. Porque passo a semana inteira sonhando que estou escrevendo fan fiction de livro de fantasia ou lambendo envelope no trabalho. E cansa. Eu fico cansada. Eu, que *sou* cansada. E me dá um ãrgui essa coisa desse formatinho organizado de ter que cultivar uma atividade xis pra poder encontrar pessoas e fazer amigos. Em vez de sair com a minha ex roommate e virar instantaneamente melhor amiga das amigas dela, por exemplo. Mas também não dá por motivos já também explicitados acima. A causa dos suspiros.

Aí tem uma moça que tem dois pãguis, que mora no meu prédio. Ela se mudou faz, sei lá, uns 2 meses. E a gente conversa quando a gente se encontra enquanto leva os cães pra fazer xixi no campo de beisebol, atravessando a rua. E eu conto que o Chazão é malvado mas é coitadinho e talecoisa. E ela me pergunta coisas e eu saio andando e não consigo nem olhar nos olhos da moça porque eu tenho essa crush nela, e fico me imaginando assistindo um dvd ou indo ao barzinho do prédio tcom ela (terça-feira, quando tem quizo). Saio andando e minha língua fica enrolada e meu inglês começa a se deteriorar e eu fico com mais vergonha. o Chazão começa a procurar lixo pra comer no chão e eu vou atrás e aí ela fala "então tá, a gente se vê mais tarde" e quando a gente se encontra de novo eu conto a história mais chata de todos os tempos de como o veterinário francês do Tchéz queria cortar as unhas dele no toco, sob anestesia, imagina o bichinho acordando e as unhas sangrando porque a cauterização não funciona direito,  que ia ser como se cortassem as pontas dos dedos de uma pessoa. E de como na outra clíncia veterinária pra qual eu  liguei disse que nem tinham esse procedimento porque é muito cruel.  E como o vet francês é maleducado e não escuta o que a gente fala e só quer saber de vender produtos caríssimos ou sugerir procedimentos desnecessários e igualmente caríssimos. Sabe? Verborragia. E não quero ser tipo stalker também, mas fico torcendo pra gente sair pra passear com os pãguis na mesma hora. Googlei, né, quem não googla? Sei que ela gosta de ler, de ir a museus, que ela queria ir a encontros de clube de livros. Aí não sei se é demais convidar a moça pra vir jantar aqui ou se é muito chegar-chegando a nível de, enquanto cultura americana. Ou se seria tão estranho quanto dar beijinho pra dar oi. Sabe? Aí mandei emelho e, se ela não esqueceu, ela vem jantar aqui no sábado e a gente vai fazer temakis. (Acabei de mandar outro pra confirmar se ela quer vir mesmo. Tô nervosa). Torça por mim.

Eu me prometi que ia dormir e fechar os olhos exatamente às 10 da noite hoje. Mas olha a hora, gente!, olha a hora. Quase 11 já. 

Meu sonho de ser psicóloga fez puf!,

porque eu descobri que precisaria fazer mestrado (tempo integral, que dura 2 anos) e depois doutorado. Como enquanto isso eu tenho ração orgânica e remédio de olho pra comprar pro Tchazão, não dá. Mais um sonho que se acaba porque não sou rica nem tenho pais ricos. Puf. Mãs, vou continuar dando conselhos a quem me peça, porque, sem falsa modéstia, eu sou boa nisso. Quer conselho? Pode pedir. 


Eu ia continuar escrevendo aqui, mas a formatação ficou estranha, então vou fazer outro post com outro assunto. 

7.3.10

Fiz o coisinho de mandarem pergunta pra mim. Fiz, né?

Tenho que tentar. Pergunte suas perguntinhas pra eu ficar feliz. Muito triste e deprê se ninguém me perguntar nada. Ó lá, hein? Tô contando com a sua ajuda pra me fazer feliz. Use o formulário abaixo (no Reader não dá pra ver, tem que vir pro blog) e me manda suas perguntas mais profundas sobre a condição humana. 

6.2.10

Direto do Túnel do Tempo: Paixão Fingida - Primeiro Episódio

O objeto da minha paixão, o sujeito por quem estou apaixonada (ainda sem nome. Sugestões?) foi pela primeira vez à minha casa. Eu já estava de camisola, uma cor-de-rosa que ganhei de uma amiga e que apesar de não ter a minha cara, é das minhas preferidas, porque foi uma amiga que deu, dei uma pequena corrida até a porta ao ouvir a campainha. Atrás de mim, veio um som de guizos. Eram os guizos do meu bichinho.

O Sujeito (vou chamá-lo assim, por enquanto), trazia bombons, sorria tímido. Eu o espiei por um segundo, antes de deixá-lo entrar. Ele não sabe que eu não gosto de bombons, que não como chocolate -- não lhe disse. Achei que era melhor comer os bombons e agradecer muito, agradecia-o pela gentileza, não pelos bombons, Talvez esse seja um daqueles mal-entendidos que se carregam pela vida, se nós seguirmos com a nossa paixão. Um dia, eu terei os cabelos pintados de roxinho e usarei vestidos com botões na frente e sapatos de furinho, como os que minha avó usava e ele me oferecerá um bombom e eu lhe revelarei que nunca gostei de chocolates, e assim terei quebrado o coração do Sujeito. Eu não saberia que ele se desdobrava toda fim da tarde para passar numa bomboniére para comprar um chocolate para mim, antes que voltássemos ambos do trabalho para casa.

Assim, abro a porta para o Sujeito e o barulho de guizos cessa por um instante. Mas cumprimento o Sujeito e ofereço-lhe assento no meu sofá cor de goiaba, ofereço-lhe um gole de vinho do Porto:

-- Oi, não repara essa minha camisola. Eu já estava indo dormir.
-- Incomodo?
-- Não, qué isso, deixa pra lá. Eu sou jovem, tenho que aprender a ir dormir cedo.
-- Eu deveria ter avisado antes, né?
-- Foi boa surpresa.

Eu convido:

-- Senta aqui no sofá (eu não digo que ele é goiaba. Só decidi explicar a você que o sofá era goiaba para que você possa imaginar a mim e ao Sujeito na sala), fica à vontade. Você gosta do Vinho do Porto?
-- Você tem? Ah, então eu aceito um golinho.
 
No momento em que me afasto para pegar uma pequenina taça e enchê-la de vinho, ouvem-se os guizos novamente. O Sujeito está curioso:

-- Você ouviu? Que barulho foi esse?
Tento esconder meu bichinho atrás de mim. Se eu fosse uma moça do século dezenove, não teria problemas em ocultá-lo sob a saia.
-- Ouvi.
-- O que você tem aí atrás?

É o Igor.

O Sujeito se levanta, indignado: "Sabe, pessoas não têm bodes em suas casas. Muito menos em apartamento. Bode é bicho de montanha. Um bode."

Ele me olha como se me conhecesse de novo. Ele me olha e acha-me esquisita. Eu tento me explicar:

-- Mas é o Igor. Peguei o Igor ainda cabritinho, pequenininho, precisava ver como ele era bonitinho e me olhava e berrava. Eu quase podia ouvir: mamãe. Mas eu não sou a mãe do Igor, não pense que eu acho isso. Uma vez, inventei que Igor era meu namorado, porque ele me exigia muito. Agora, ele está tão bem, é um bom bode. Ele não mastiga tudo o que vê pela frente, usa coleirinha e é muito, muito limpinho e educado.

-- Você é louca.

O Sujeito larga a taça de vinho do Porto num canto e bate a porta atrás de si.

Começamos mal Sujeito e eu.

4.2.10

Meus coleguinhas de janeiro: Kylar, David, McCaleb, Shadow, Toru Okada e um tubarão


Menina's january2010 book montage

American Gods
The Narrows
The Way of Shadows
Blood Work
The Book of Lost Things
The Lincoln Lawyer
The Wind-Up Bird Chronicle
The Concrete Blonde


Menina's favorite books »



Depois de começar minha fase de ler filme de conspirações internacionais/detetive/mistério, conheci Michael Connelly. Ele trabalhou como jornalista criminal. E agora vive de escrever livros: tchanã! O meu favorito até agora foi "The Poet" (no finzinho do ano passado). * Um policial, irmão gêmeo de um jornalista, comete aparente suicídio. O jornalista resolve escrever uma história sobre suicídios de policiais e suspeita que outros casos de policiais que aparentemente se mataram podem estar ligados. Aí vem o FBI, a agente com quem ele quer fazer séquiço, a perseguição ao assassino em série. Não estou fazendo justiça à história porque não quero contar muito. Mas é tão legal. Li o livrinho todo em quase uma sentada. Divertido.

*É legal também porque se você gostar do Connelly, ele tem vááááários outros livros publicados. Eu me esbaldo. Por isso em janeiro li outros livrinhos dele. Divertidos também, mas não super que nem foi "The Poet". Ah. Ele tem uma série com um detetive Harry Bosch. E vários personagens reaparecem em outras histórias. Eu gosto. Parece assistir seriado, sabe? O que aconteceu com o Harry? No próximo livro a gente descobre. E eu me envolvo. E fico amiga dos personagens e sinto saudades.


Aí nerdeei mais e li "The Way of Shadows". De lutinhas e assassinatos e conspirações. Não vou mentir, hein? As historinhas de conspiração eu vou meio que ignorando porque não consigo lembrar todos os nomes dos personagens e das facções. Mesmo assim, gostei e estou lendo o segundo livro da trilogia. E eu gosto dos assassinos. São muito, muito gostáveis. E bonzinhos. Vou continuando porque eu quero que eles se deem bem.

Sobre o livrinho das coisas perdidas já falei. Aí tem Murakami: sonhos, subconsciente, busca de rumo na vida, David-Lynch. Hein? Tudo que eu não entendo e acho que não é pra entender eu chamo de David-Lynch. Lembra de Mulholland Drive? Lembra das pessoas no cinema levantando e indo embora porque não entendiam *piiiii"* nenhuma? Aí depois li uma entrevista com DL, acho que na Bravo, que me deixava (que aqui não tem, né?) me sentindo muito inculta (apesar de bela) e ele disse que não era pra entender mesmo. Que era pra curtir. Então eu faço isso. Eu curto. Não fico procurando significados transcedentais e metafóricos.


E "American Gods", né? Esse é o terceiro livro do Neil Gaiman que eu li. Ai, gente, chame-me de ignorante, de filisteia (rerrê), de qualquer coisa. Gostei. Mas não amei. Espero reações violentas, paalavras-pedras nos comentários. Ou, sei lá, uma explicação sobre como é tão sensacional. Violinos não tocaram, coraçõezinhos não choveram sobre mim e meu livro. É bom? É. É maravilhoso? Não sei. Não sei porque minha expectativa era tão grande -- todo mundo me dizendo: melhor da vida, hein?, meu preferido de todos os tempos! -- que eu li achando que eu finalmente ia entender amor à primeira página. Mãs. Simpatia é quase amor, né? Ao fim e ao cabo, recomeindo. Em que a gente acredita? Por que a gente tem que acreditar em alguma coisa? Pra onde esse mundo vai? Acho que essas são as temáticas principais. Mas, cê sabe, sou ignorantona. Pode ser que seja sobre outras coisas totalmente diferentes.

E tinha o tubarão também. De um livro que eu não consigo terminar. Não consigo. Empaquei. É até engraçadinho, é até fofucho, é inteligentinho. Tchezão odeeeeeia esse livro. Vira cujo. Ele rosna e e tenta me morder e não me deixa chegar perto. Acho que porque veio da casa de uma das moças que trabalha aqui e ela tem uma buldogue (que, aliás, está com tumores e já viu o resto da história, né?, não posso contar pra não chorar). Enfim. Tinha o tubarão mas agora não tem mais.