26.6.09

Dia 5: Umas observações sobre morar aqui

O menino mais lindo do mundo às vezes se ofende porque parece que eu não gosto de nada daqui. É que as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá e cismando, sozinha, mais prazer encontro eu lá. Mas também não é assim. Vou falar aqui de algumas diferenças que eu notei. Culturais ou não. Mas também, né, não é que eu conviva com milhares de pessoas. Só vou observando as pessoas ao meu redor, que são poucas. Então pode ser que as minhas observações sejam completamente furadas.
  • A primeira vez que eu tomei o café de água pra mim eu pensei: geeeente, é igual de filme. É assim mesmo!  Um pequeno baldinho de café aguado que você leva por aí. Xicrinha de café, aqui, é pra espresso. Mas quem é que vai tomar espresso quando se pode tomar chafé? Depois de um tempo me acostumei, mas agora estamos em busca de um coador e garrafa térmica pra fazer o que o menino mais lindo do mundo chama de "café real".
  • Não se come arroz como se fosse coisa de todo dia. Comem-se legumes, purê de batata. Super incorporei arroz às nossas jantas. E feijão. Não tem requeijão, mas a gente vai buscar lá na lojinha brasileira. Não tem pão francês e a mortadela daqui não é essa cocacola toda. E o café da manhã é de filme também. Ovo mexido ou frito, bacon, 10 panquecas com um xarope e muita manteiga. Geralmente não tem pão. Mas, sabe, eu gosto de comer ovo frito no café da manhã. Com torrada. E bacon. De vez em quando. Pronto, confessei.
  • As porções são gigantes. Segunda pesquisas, ao perguntarem quando é que se sabe que se deve parar de comer, americanos dizem "quando toda a comida acabou" e franceses dizem "quando estou satisfeito". O bom é que geralmente você vai levar comida pra casa.
  • No restaurante, o garçon já vai tirando o prato de quem terminou. Vai ter vez que você vai sobrar comendo sozinho. E assim que todo mundo termina, eles já trazem a conta no bolso, pro caso de você não pedir sobremesa ou café.  Da primeira vez, fiquei bem incomodada, achei que a garçonete estava sendo mal-educada. Ou seus companheiros de mesa vão pedir a conta correndo também.   Ficava espantada, coisa de choque cultural mesmo.  Eu tive a sensação de que estava sendo apressada.  Não teem aquele período em que a gente vai tomando café bem devagarinho e continua conversando no final. Mas nem, depois me explicaram que é assim mesmo.
  • Aqui não tem essa coisa de... sabe quando você começa a trabalhar num lugar novo? E as pessoas te convidam pra ir almoçar pra você não ter que ficar sozinha? E te falam oi e dão uma passadinha na sua mesa pra saber se está tudo bem? E já perguntam sobre tudo e você já começa  dar conselhos sobre a vida amorosa dos coleguinhas? Aqui não rola. Em compensação, acho ótimo também. Porque assim posso super não interagir e ninguém acha estranho.
  • Se você faz um favor pra alguém, uma gentileza qualquer, as pessoas ficam incrivelmente agradecidas. Como se gentileza fosse uma estranheza. A cultura do cadum-cadum é tão forte, que realmente as pessoas se espantam quando a gente se dispõe a ajudar com os problemas dos outros. Eu falo sempre que tem ajuda "à brasileira" (leia-se: de host cultures) e à americana. A diferença que eu sinto é mais ou menos assim. Um americano diria: leia as instruções/google. Um brasileiro diria: é assim que eu faço e vou te mostrar/olha aqui os linques que eu achei sobre isso. Não é que seja ruim. Ajuda de brasileiro é detalhada, mas uma pessoa mais independente (e esperta) é perfeitamente capaz de descobrir coisas por si só sem ter que ter ajuda "para crianças". Então ninguém vai te ajudar como a gente esperaria, mas por outro lado, ninguém espera receber ajuda também, porque não é obrigação social ser esse tipo de solícito/gentil. Meio que as pessoas esperam que você vá dizer não, enquanto que a gente espera que vão dizer sim ou ter uma desculpa muito boa pra negar ajuda.
  • No geral, acho que as pessoas têm mais dificuldade de improvisar. Havendo instruções ou um passo-a-passo, vão bitolar naquilo ali. Por exemplo, com receita. Geralmente eu leio mais ou menos e faço como entendi, substituo ingredientes, corrijo alguma coisa que acho que não está dando certo. Aqui parece que rola meio aquele desespero de seguir a receita palavra por palavra.
Só consigo lembrar disso por enquanto. Depois vejo se lembro mais.

8 comentários:

  1. não vivo sem requeijão e detesto café da manhã sem o meu pãozinho francês...rs!
    por outro lado, tb adoro não ter a obrigação de interagir!
    adoro essa blog com posts diários!
    beijos

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  2. "O menino mais lindo do mundo às vezes se ofende porque parece que eu não gosto de nada daqui."

    Posso te falar a verdade? Eu tenho a mesma impressão que ele. Já estive para perguntar, mas achei que seria intrometido demais da minha parte. Mas, tipo, acho supernormal. Ficar no exterior por mais de duas semanas me dá banzo e mau humor. As aves que aqui gorgeiam... Pode ser tudo desorganizado, esculhambado, sujo, mas eu não troco isso aqui por nada. Amo muito tudo isso.

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  3. Renata, tô tentando ser boa blogueira.

    Lys, por outro lado, por exemplo, eu tenho esse emprego e tenho que aprender a ser adulta. Mais fácil tentar ser adulta aqui, que não tem muito pra onde correr. E embora eu não seja muito afeita a interação humana -- pessoas me aborrecem facilmente --, sinto falta de ter amiguinhos com quem sair e a quem chamar de meus.

    E... intrometa-se. Você sabe que você pode. Tanto que já te enchi com os meus mimimis!

    Acho que a campanha antiamericanista tão forte na minha infância e adolescência, lá em casa, teve efeito mesmo. Rerrê. Sério mesmo: acho mesmo que é mais por desajuste cultural que qualquer outra coisa.

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  4. Eu consigo escrever um comentário de 10 linhas e colocar 20 "mesmo" nele.

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  5. ai, eu ia sentir muita falta de pão, muita. agora ia super adorar q ninguem fizesse amizade de inicio de trabalho e tb nao tivesse a obrigação de ajudar.

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  6. xarope?? eu sempre achei que fosse uma cobertura assim, tipo um doce. na tv parece tão bom...

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  7. Ai, Haline e Renata... um pãozinho francês quentinho não é tudo nessa vida?

    neutron, olha: o xarope. É gostoso mesmo.

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  8. O que mais me incomodaria seria a falta dos meus itens favoritos no café da manhã... É a minha refeição favorita... E do jeito que estamos acostumados a fazer, considero a melhor do mundo...

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