21.5.09

Meu pai

Essa historinha eu escrevi pra levar de presente pro meu pai num Moleskine pequinininho com uns desenhinhos pra ilustrar. Não tirei fotos das figuras. Minha tia, que faleceu faz pouco, tinha me pedido pra escrever uma composição sobre meu pai, já que eu já tinha escrito uma pra minha mãe. Acho que não tem muita graça se você não conhecer meu pai e as manias, as coisinhas que ele faz e as muitas expressões que ele usa. Mas vá lá.

Meu Pai

Um Pequeno Tratado de Biologia

O Corpo Humano

Introdução. O corpo humano do meu velho pai é pequeno. É de se espantar que dentro dele caibam tantas coisas. Quando eu era pequena, eu achava que era muito grande, mas agora nossos corpos humanos são mais ou menos do mesmo tamanho, sendo que o dele encolheu um pouco e o meu alargou bastante. Eu conheço o corpo humano do meu pai desde que nasci. Ele só conheceu o meu quando tinha 43 anos. É muito tempo pra não se conhecer alguém. Dá até uma saudade dele de antes de eu existir. Os nossos corpos humanos habitam este mundo juntamente há quase 32 anos. Esse é um pequeno estudo científico sobre o corpo humano do meu pai.

1. A residência do corpo humano do meu pai. Meu pai mora num mundo que saiu de um livro de histórias. Um mundo velho e que não tem porteira, onde mora o amigo dele, Senhor dos Passos, que tem uma mula peidorreira. Ela às vezes peida n’água pra soltar borbulha. Também tem o amigo Gersinho, que, coitado, depois de uns 20 anos ainda não descobriu que eu não sou uma menina biônica. O corpo humano do meu pai poderia morar em outros lugares, mas não é adaptado aos climas frios.

2. A boca. Meu pai não sabe cantar afinado. A única música que ela acerta é Samariquinha Maroquinha. A boca do meu pai tem um sabiá que mora dentro dela e que sopra em assobio as canções mais lindas. Esse passarinho também ensinou meu pai a fazer biquinho, especialmente quando ele toma café em xicrinhas bem pequenas. O biquinho do meu pai também pode ser utilizado para dar beijinhos. E como o passarinho que assobia ocupa muito espaço, meu pai não consegue engolir comprimidos sem jogar a cabeça pra trás como se fosse dar gargalhadas. Às vezes a boca dele fica suja, como por exemplo quando ele conta piadas.

3. O pulmão. O ar que tinha dentro dele um dia foi pra dentro de um bezerrinho acabado de nascer, no curral. Meu pai soprava na boca dele e acho que eu tinha as mãozinhas no peito, apertando. Meu pai deixou dar um nome pra ele: Beto. Depois ele virou um boizão.

4. A língua. Serve para falar em línguas, como na Bíblia. Meu pai sabe falar, além de português, a língua dos cavalos. Primeiro ele oferece a mão, depois anda devagarinho e daí o passarinho da boca dele assobia um vocabulário todo novo. Meu também sabe falar com jumentos e vacas. Ultimamente, ele também entende a nossa Cuca. Noé ficaria muito feliz em conhecer meu pai.

5. A cabeça. O meu pai tem a cabecinha muito boa e guarda muitas histórias, mas às vezes, acho que ele confunde onde as pernas (de mulher) ficam, porque ele dorme de meia-calça na cabeça. Diz que é para o cabelo obedecer melhor o pente. Para a boa manutenção das funções cabeçais, meu pai precisa de tuqui-tuquis aplicados no mínimo semanalmente. Ele trabalha muito a cabeça dele e exige que todos façamos o mesmo.

6. As costas. Servem de cavalinho para netinhas -- somente as humanas, e não as caninas. As costas do meu pai estão sempre muito estressadas. Elas sempre precisam de um relax.

7. Os órgãos reprodutores. Apesar do meu pai não possuir órgãos reprodutores, porque pai e mãe da gente não praticam o intercurso sob pena de traumatizar as crianças, ele conseguiu se reproduzir. O corpo humano do meu pai misturou um pouco com o corpo humano da minha mãe, que é uma mulher nipo-brasileira moderna do século XXI, e assim, eles tiveram filhotes e minhocas. Eu tenho que agradecer os órgãos reprodutores do meu pai e da minha mãe porque eles fizeram, juntos, os melhores irmãos, os mais docinhos.

8. A barriga. Meu pai não é cuspidor de fogo, mas houve um tempo em que ele engolia carros, especialmente no período noturno. Acho que por isso mesmo a barriga dele é um pouco redonda pra frente. Os principais alimentos que ele gosta de manter dentro da barriga são arroz queimado, salada murcha e pé de galinha. A barriga do meu pai não orna com strogonoff.

9. Os pés. Tiveram bicho quando ele era pequeno. Eles gostam de botinas e recusam a liberdade de chinelos ou do par de sandálias que eu dei pra ele no Natal de 2003. Chutam a gol quando a gente assiste a jogos do São Paulo na tevê e o artilheiro é muito pé frio ou está de salto alto.

10. Os olhos. Fecham bem pesados no meio da novela das 8. É sinal de que ele tem que dormir de imediato.

Epílogo. A melhor coisa do corpo humano do meu pai é quando ele abraça meu corpo humano.

7 comentários:

  1. Que texto DOCE! Terminei de lê-lo com um sorriso no rosto. :-)

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  2. Coisa linda, Ione.
    Me arrepiei aqui. Ele deve ter amado.

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  3. Chorei de tão lindo, com certeza ele te amou mesmo antes de vc existir.
    Abreijos.

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  4. muito lindo.
    pai é bom, néam?

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  5. Carolina. :*

    Lolló, desarrepia!

    Nanna, acho que ele gostou :)

    Marcia, pai é pra lá de bom.

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