30.3.09

Livros que amei (ou não): ouriços e o nariz

Eu digo pra você. Digo, digo, digo e repito. Eu sou chata. Não valho o clique que traz a sua visita. Eu fico com essa coisa de cricri com livros e filmes, que vai me limitando muito na busca do que me agrade. Na busca, não. No encontrar. Como foi que eu criei esses parâmetros inatingíveis? Por exemplo, o filme Happy-Go-Lucky (dirigido por Mike Leigh) de que todo mundo aparentemente gostou. Numa escala de F a A+, dei F. Porque não tinha pé nem cabeça, a história não evoluía nem linearmente nem qualquermente (se havia enredo ali eu não vi), as personagens não me emocionaram (a não ser para desgostar delas) , foi uma coisa de pele mesmo: empatia zero. E eu só não levantei e fui embora do cinema porque me restava a esperança terna no coração de que subitamente tudo faria sentido e eu ia entender a causa da admiração pelo filme. Aí ele foi indicado ao Oscar e eu fiquei com cara de como-assim. E assim é com vários livros/filmes/tudo que me chegam muito-muito bem recomendados.

Aí vou ler o primeiro livro "sério" depois de empanturrar meus momentos livres com historinhas de príncipes que se comunicam telepaticamente com animais e que têm que libertar ou matar dragões presos no gelo.* E vou com tudo porque o livro foi recomendado por quem lê o blogue e li muitas (muitas!) críticas boas. Empaquei nas primeiras páginas. Com o palavrório. Explicando Marx. E achei que fantasia tinha feito mal ao meu intelecto que em condições normais já é claudicante. Pode explicar Marx pra mim que eu não me importo e até gosto. Pode me explicar Demócrito, Kant, Hobbes, (oi, professor Alaor Caffé Alves Filho!) quem você quiser. Porque me interessa e porque eu era muito verde quando tive que ler/estudar sobre isso. Mas achei o palavrório bem desnecessário. Continuei, porém, forte como uma sertaneja, porque, via de regra, comigo é assim: eu demoro pra me empolgar com a leitura mas sigo porque pode ser que.

Em "A Elegância do Ouriço", conta-se a história da zeladora (que o livro chama de concierge) de um prédio em Paris que secretamente é inteligente e culta, mas que tenta agir conforme o estereótipo lhe impõe. Tipo andar arrastando chinela e ver televisão o dia todo. O porquê dela ter que se adequar a esse padrão de zeladora típica é um mistério que vai sendo deixado pra depois. e que quando é revelado em nada convence. Tem também uma menina de 12 anos que é gênia e que se quer suicidar porque ela não consegue encontrar uma razão filosófica e emocionalmente sólida pra viver. As duas tratam o resto das pessoas como suas inferiores, como indignas de qualquer atenção ou até de gentileza sincera, como se fossem meros objetos de estudo (e de espanto).

Elas duas ficam amigas de um senhor japonês que se muda para o prédio e a esperança brota naqueles coraçõezinhos duros. Porque este senhorzinho consegue ver através da carapaça delas e vê que elas são fantasticamente inteligentes e, por isso, valem serem conhecidas. Mas aí eu é que estou sendo injusta (vendo como negativa a razão pela qual ele quer ficar amiguinho) porque pra mim ele foi o personagem mais gostável. Tudo isso é costurado por divagações filosóficas sobre a arte, a vida e o bem que a mim soaram enfadonhas, mas principalmente pedantes. Não nego, entretanto, que concordei com (e gostei de) algumas das idéias da menina gênia (que a gente deve aprender a estar em silêncio, que se deve investigar a si mesmo, em vez de sempre querer algo externo em direção a que devemos nos mover, que mais? Não lembro). Mas acho que esse livro contribui para essa idéia de que certos assuntos ou temáticas são irremediavelmente inatingíveis e que só pessoas com QI superior a X ou com nível cultural e educacional Y devem tratar deles. Fica aquela coisa acadêmica, secreta e elitista, que falha em promover a aproximação com a pessoa média que poderia até se interessar sobre isso ou aquilo, mas que não entende a utilidade ou se sente incapaz de. Mas vai ver essa não é uma razão pra desgostar do livro, já que ele não se propunha a cumprir esse papel. Isso foi só um desdobramento que eu fiz. De repente não é pra eu ficar de bico com esse livro. De repente é pra um público com nível cultural acima do meu -- aqui reconhecendo publicamente minha ignorância, de que não me envergonho. Ou eu é que me endureci e perdi a ternurice. Mas achei que era uma história sobre narizes -- empinados -- mais do que sobre a elegância do ouriço.

*Amei muito, aliás. Bem escrito, a gente se envolve com os personagens, fiquei triste quando acabei de ler a segunda trilogia com o FitzChivalry (The Tawny Man Trilogy). Fiquei triste com perdas de personagens. Com fim que não é totalmente feliz. Com não poder voltar pra casa e ler mais sobre essas pessoas fictícias. Acho que conseguiu me tocar mais que o Elegância. Não é, né?, pra ser profundo e levar a grandes reflexões. Mas é exemplo de uma história bem contada.

4 comentários:

  1. Ion, tive a mesma impressão que a sua ao ler a tal da "Elegância do ouriço"...

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  2. Não li "A Elegância...", mas faz tempo que estou na chatice com tudo, principalmente livros. E lhe digo que para mim isso é um grande problema, sendo tão amante das letrinhas como sou. Acho que dos últimos cinco livros que li, nenhum me empolgou ou conseguiu neutralizar meu terrível senso crítico, aka "chatice". Por isso, retornei ao que era seguro, embora tolo - Stephen King. Água. No momento, estou me jogando de volta nas obras completas da minha querida Jane Austen: é leve, é engraçado e é previsível, mas adoro sempre.

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  3. pemalodro.blogspot.com4/21/2009 9:01 PM

    Posso ser sixties? Vintage? Você me tira da fossa! Morro de rir! Vale um montão de cliques! Agora eu tenho que digitar calver. Deve ser irmão do Klein. Bjs.

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