6.3.09

Adoro o microcosmo que é este escritório

Era uma vez... um escritório que abriga vários advogados que não trabalham na mesma firrrrma. Um, por exemplo, é meu tchefe. A pessoa que paga meu salário emprega as seguintes pessoas:
  • eu; e
  • a recepcionista (ele paga 4 meses do ano).
Há outros dois fulanos, que aqui vou chamar de Luis e Luiz, com seus respectivos súditos, que alugam o espaço e os 3 (Luis, Luiz e meu tchefe) subalugam pra outras pessoas. Eu sento num cubículo que dá pra sala do Luiz e do meu tchefe. Do outro lado da paredinha da minha baia, tem a secretária e outro fulaninho, o super puxa-saco que se acha porque fez Direito. E tem outras duas salinhas que também dão pras baias, onde estão 2 adevas, sendo um deles empregado do Luiz. Eles adoram falar alto. A secretária é a moça que eu apelidei de Moça do Rádio. Eu já contei a história, mas só pra recapitular, o rádio dela está sempre ligado, sempre alto, porque ela disse que não dá pra ficar com rádio quando eu pedi pra ela desligar o maldito pelo menos a metade do dia. (eu tentando ser conciliadora). Então ela disse ia tentar deixar bem baixinho, mas que não ia desligar.

Esse pessoal tem um problema muito sério no mundo conectado de hoje, qual seja, eles não sabem fazer uso dos aparelhos de telecomunicação, mais especificamente o telefônico. Eles gritam daqui pra lá e de lá pra cá e quando usam o telefone, usam o mesmo tom de voz. Quer dizer: é o rádio, é a Moça do Rádio (MR) batendos os dedões com toda a força no teclado, enquanto eles todos gritam um com os outros ou com clientes e etc. em ligações. Essa é minha vida aqui no escritório.

Antes da MR, trabalhava aqui a D. Ela era rápida e chegava antes da hora e estava sempre de bom humor. Por outro lado, ela chorava cada vez que o Luiz, o chefe, dava mancada, ou seja, constantemente, porque ele é a pessoa mais... incrivelmente megalomaníaca e, não há outra palavra pra descrever: escrota, que eu já vi. Ele liga pras pessoas e fala: "Alô, aqui é o Luiz da Silva. Eu sou um advogado!". Ele fala o tempo in-tei-ri-nho: quando não está falando das coisas INCRÍVEIS que ele tem/comprou/fez/viu/tocou/ouviu falar, ele está batendo boca com clientes ou outros adevas e gente de companhias de seguro. Batendo boca mesmo. De chamar os outros de burro e tudo mais. Porque ele é adeva, os outros não são.

Voltando à D. Ela tinha combinado com ele que o horário ia ser flexível, porque ela queria poder ir pra casa curtir o filho, blablablá. Ela lembrava desse combinado, mas o Luiz esqueceu totalmente. Em seguida ela teve umas dores de cabeça e teve que ir ao médico e ficar em casa e nesse meio tempo o Luiz resolveu entrevistar outras pessoas pelas costas da D. Como eu sabia? Eles gritam, eu ouço. Eu, bobinha , querendo ser correta, achando uó o que ele estava fazendo, e querendo ser boa pessoa, disse pra D. ficar esperta e começar a procurar outra coisa. D., mais bobinha que eu, ligou pro Luiz e perguntou, super descontrolê, se de fato ele já estava entrevistando pra vaga dela. Chorando, gritando, botou até o marido pra falar com o Luiz. Quem poderia ter contado pra ela? O adeva que tinha acabado de começar ou o puxa-saco que trabalha do outro lado da paredinha que agora se acha porque também é adeva? Ou eu? Ele perguntou, ela não respondeu, mas era óbvio.

De modo que o Luiz veio tirar satisfações comigo, meio que tentando me fazer confessar que tinha sido eu a avisar a D. E que ela era louca de sanatorinhos e que ele a tinha despedido por esse motivo e porque ela chegava tarde e saía cedo e esse filho de quem ela tinha que cuidar, e blablablá e que ele entendia que eu tivesse corrido a fofocar pra D. , porque éramos amiguitas, insinuando, por fim, que ia falar com meu tchefe a respeito e que podia rolar até demissão. Eu, firme e silenciosa, fiz cara de Monalisa e fui falar com meu tchefe, que me defendeu. Meu tchefe é boa pessoa. Luiz em seguida foi falar com meu tchefe pra ver se ele sabia de alguma coisa, já que eu não tinha dito que sim nem que não. E em seguida Luiz pediu audiência comigo pra pedir desculpas e vamos fazer as pazes e almoçar essa semana, ao que eu respondi não, obrigada, valeu, mas não. Né? Vai catar coquinho. Agora ele tem meio que medo de mim. Porque eu não chorei, não esperneei, nem bati palmas, nem fiquei entusiasmadíssima pela atenção, e não quis ficar melhores-amigos-pra-sempre. Só pedi distância.

Isso tudo é só o pano de fundo pra história do microcosmo. Trabalhar aqui é que nem ler um livro de fantasia em que as pessoas fazem alianças e depois as traem. Tem lutinhas e tem intriga. Um fala mal do outro pelas costas e todo mundo finge ser melhor amigo de tudo mundo, enquanto todos puxam o saco do rei Luiz. Eu só escuto. Bufo um pouco. Fico incrível com a natureza humana. Chega de querer ser legal. De fazer o que é correto. E chego à conclusão de que certa estou eu em não falar com ninguém. Só sorrio (bem de vez em quando), quando me pedem ajuda pra alguma coisa eu sou solícita, mas é só isso mesmo. Como diria um amigo meu, trabalho não é um lugar pra se fazer amigos. Eu realmente tive muita sorte e conheci pessoas sensacionais em vários estágios e escritórios por onde passei. À custa de ter ouvido de penico e engolir muito desaforo porque tem muita gente de má fé também nessa vida. Então era essa a pequena história que eu queria contar que deixa essas bonitas mensagens no final: coisas ruins acontecem a pessoas boas; a maioria das pessoas só atende a seus próprios interesses e vai tentar prejudicar mesmo que não leve vantagem nenhuma nisso.

8 comentários:

  1. ai, ai... aqui é igualzinho...

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  2. Ioney, sabe o que é mais feio? Eu vejo isso na minha 'family in law', essas intriguinhas pelas costas e pela frente só amores. Prefiro fazer como você: só sorrio. De vez em quando.

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  3. Naty e Carol, é igualzinho em qualquer lugar. Família, escritório, o que seja. Gente é gente...

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  4. Ní! Pensei que nem a Carolina! Ah, agora perdeu a graça dar um bip...

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  5. por isso que dou graças de trabalhar sozinha :)

    bjus

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  6. É tudo igual, concordo. Mas dá um cansaço, não dá?

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  7. Querida Menina, você é minha ídala. Minha meta é aprender que trabalho (como você bem disse) não é lugar pra se fazer amigos. É selva. Tenho que me cuidar. Você está certíssima, só mantendo uma certa distância é que a gente mantém a sanidade. Já me meti em enrascada tentando fazer a coisa certa para os colegas. Parece que nunca dá certo mesmo, né? E nem todo tchefe é legal. Temos vários microcosmos na vida, o problema é aprender como se portar em cada um. Continue assim, evoluída! :)

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  8. Suzi: dá.

    Samanta: o que você chama de evolução, eu chamo de tomar na cabeça. :)

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