23.11.08

Minha mãe

Minha mãe ficou de barriga de mim quando já fazia tempo que ela achava que tinha fechado a fábrica e parado todas as máquinas. Acho que ela já tinha desistido de me ter -- isso antes de me esperar -- mas depois ela me salvou, porque sabia sobre mim e sobre o escuro da barriga redonda e cheia melhor que o Dr. Alcides, o ajudante da luz a quem minha mãe me deu (mas só um pouquinho, depois ela me pegou de volta).

A luz me pegou nos braços e colocou um gorrinho cobrindo o cabelinho preto, também escuro como dentro da barriga da minha mãe. O gorrinho era pra não assustar os meninos em casa. Se eles ficaram com medo do nenê na sacolinha, eu não sei, mas quando meu cabelo ficou grande de novo, os meninos até gostaram de mim. Aí ela tirou o gorrinho e todo mundo me achou o joelho mas bonito do mundo, o joelho menos joelho que existia. E ela me deu um beijinho; meu pai também. E depois os meninos, com cuidado. Essa parte eu tive que inventar, porque eu estava lá, mas não me lembro.

Bem cedo ela me punha meias brancas até o joelho, sainha plissada e tênis de couro que fervia o pé. Ficava acenando tchau no portão. Ela sorria contente. Às vezes, chorava também. "Que menininha tão bonitinha que eu fiz," ela pensava. "Eu e o Olo." Ela não pensava a mesma coisa sobre os meus irmãos porque eles já eram grandes.

Um dia, ela foi aprender a dirigir. Nunca aprendeu. Nem com almofada pra tentar enxergar bem ali na frente do pára-brisa do fusquinha. Eu dormia até ela voltar, porque tempo dormido é mais curto que tempo acordado e aceso. Ela chegava e se deitava comigo, as duas de barriga pra cima. "Fecha os olhos", ela dizia, e contava a história da vaquinha que chupava o dedo. Quando as aulas de direção terminaram, ela me levou pra passear de carro com ela. Foi a primeira aventura que a gente viveu juntas.

Um tempo depois, ela ficou a pessoa mais triste, porque meu pai ia pra cá e pra lá, e eu ia pra lá e pra cá bem colada com ele, e ela não se conformava: tanto brigadeiro enrolado pra festinha no primário, tanto aconchego na toalha amarela felpuda com orelhinhas, não pode ser assim... Mas eu voltava sempre, então ela se esquecia da ingratidão. Nessa época, eu não conhecia essa palavra, nem sabia o que era isso. Acho que eu só sabia ler umas palavras assim:

ioiô iaiá via Vivi

Antes que alguém me pergunte, já digo logo que eu gosto da minha mãe e do meu pai bem igual e grande, mas é que agora a composição é sobre a minha mãe.

Minha mãe canta mais bonito que a Dolores Duran e a Maysa. E coloca aí a Elizeth Cardoso. Ela escreva poesias num caderno velho, mas as coisas mais bonitas e lindas que ela já escreveu são:
bolinho de chuva
chorinho no telefone, de saudade
café preto bem quentinho, passado na hora no coador
uniforme da escola esquentado no forno de debaixo da coberta
colcha de retalhos de pijamas de bonecos de neve, navios e corujas
vestido de noiva cousturado de cortina de banheiro
avestruz com penas de peru que ela fez pra um trabalho do colégio
Na condição de uma mulher do século XXI, conhece a arte de fazer bolinhas saltarem bem longe apenas com a força da perereca cabeluda, mas não acho que ela realmente tente isso. É melhor nem pensar nisso, porque mãe da gente só tem três coisas da anatomia humana:

mão macia
colo quente
e coração valente (só pra rimar).

Agora chega de escrever porque este livro é de presente pra ela e eu já ocupei muitas páginas.

Um beijo e um abraço apertado da
Ioney
(maio/2004)

Eu escrevi essa dedicatória num caderno que dei pra minha mãe quando ela teve que ficar um tempão no hospital. Pra passar o tempo ela escrevia poeminhas -- e ainda escreve. Os poemas que ela escreveu, minha tia Emi, que faleceu há pouco tempo, ajudou a compilar pra publicar num pequeno livrinho que se chama "Meus Guardados"*.

Um poeminha da minha mãe, que ela dedicou pra mim no meu aniversário de 2004:

Cantiga de ninar
(cantar devagarinho)

Volte, volte, meu menino
Deite no meu colo, venha a ser feliz
Volte, volte, meu menino
Venha brincar, venha cantar
Só assim vai ser feliz
Volte, volte, meu menino
Deixe a tristeza
Só assim vai ser feliz
Cante, cante, meu menino
Só assim vai ser feliz
Feche os olhos, feche os olhos, meu menino
Venha ser feliz
Feche os olhos, feche os olhos, meu menino
Venha ser feliz

(nome completo da minha mãe)

*Acho que a moça revisora "reviu" o que eu escrevi, porque ela colocou uns parágrafos onde eu não colocaria, acentuou palavras que nem o nariz dela e cortou pedaços de texto. Eu copiei a dedicatória diretamente do livrinho, de modo que tentei reconstitui-la do jeito que eu acho que ela era.