23.7.08

Uma historinha que eu escrevi faz tempo (Eu queria aprender a falar delicadezas):

Eu queria aprender a falar delicadezas que não fossem tão tristes, nem fizessem a gente se sentir pequena e escura por dentro e com medo de tirar as meias e pisar no chão frio. Eu acordei com saudade. Saudade é bom pra acordar com a gente. A gente levanta e deixa a saudade dormindo quietinha na cama, com medo de ela assustar com o barulho do vento entrando pela janela -- para colocar as mãos pra fora e sentir se frio, se calor, se azul -- com o barulho da roupa sendo vestida e do perfume voando no ar até o colo. A saudade enrolada na colcha de retalhos dos pijamas dos irmãos, costurados na máquina da minha mãe, os pés dela escondidos, pequenos, fazendo correr a agulha nos panos, os pijamas com desenhos de navios, com estampas de bonecos de neves de flanela, corujinhas com olhos grandes, sorrindo. Dava medo de acordar a saudade dormida com o barulho da lembrança da máquina de costurar. Eu queria aprender a falar delicadezas que fossem silenciosas e tristes como se fossem uma agulha guiando os fios de sedas azuis e amarelos e de outras cores também, a agulha, o dedal. O ponto cruz das flores no sereno. O sereno.
Eu trouxe essa colcha pra cá quando vim do Brasil da última vez.

3 comentários:

  1. Para mim tu já escreve delicadezas.
    Eu gosto muito e minha mãe também.
    Um beijão

    ResponderExcluir
  2. Você já aprendeu querida Ion! Lindo! Beijos, Cris

    ResponderExcluir
  3. Léli, um beijo pra você e pra sua mãe.

    Amiga Cris! Manda e-mail, faz favor.

    ResponderExcluir