14.11.07

Livros que amei (ou não)

No dia em que eu fui ver o último filme do Wes (o Darjeeling), eu vi o trailer do The Kite Runner. Todo um problema com esse filme. Um dos atores que faz o papel do menino que fica no Afeganistão, que é do Afeganistão mesmo, tem que fazer uma cena em que ele é estuprado (no Brasil, não é estupro, é atentado violento ao pudor: rá!, meus tempos de adEvogada...). Mas o menino não sabia dessa cena -- antes das gravações começarem -- e ficou com medo de a tribo dele se voltar contra ele, com violência mesmo. Que ele pode virar um pária social, não só pela confusão entre realidade e ficção, que não é fácil de distinguir pra essas pessoas tão simples, mas porque há esse conflito entre Hazaras e Pashtuns. Ele é Hazara. O herói do filme é Pashtun. O pai pediu pra cena ser tirada ou pra nem ser gravada. Acho que não tiraram.

Outro dia, em volta da fogueirinha, a gente (eu só ouvi, mais uma vez) discutiu isso. Um disse que era melhor que a família desse menino tivesse alguma oportunidade, mesmo que significasse ostracismo social ou ainda pior. A Porque pra eles pode ser uma questão de ter o que comer ou não. Ter esse cachê ou passar fome, mesmo que eles tenham que se submeter a fazer o que não querem. O que é melhor, esse roommate dizia: ter esse tipo de escolha ou não ter escolha? Quer dizer, a gente nem vislumbra mais qualquer decência quando pensa em como é que a economia funciona, o mercado? A gente só se limita a pesar o ruim com o pior? Não se cogita mais sobre o que é correto e honesto? Uma coisa meio derrotista/conformista mesmo: é assim que a economia funciona. A gente não se revolta mais?
Outro exemplo que ele deu foi de, por exemplo, trabalhadores rurais que não são informados sobre os produtos químicos com que estão lidando, que são prejudiciais. O que é melhor? Que eles não trabalhem at all ou que eles tenham esse tipo de trabalho? Mais uma vez não se cogitou sobre o correto, deu-se o errado por vitorioso.

Olha, gentê, vou ter que dizer não, não amei esse livro que, enquanto filme, deve ser bom pra se ver comendo pipoca quando já estiver passando na tevê. Foi exatamente o que eu pensei quando eu li o livro, faz uns meses. Eu gosto dessas histórias meio com cara de saga. Histórias que acompanham os personagens por muitos anos. A primeira parte do livro é realmente linda. É triste, é comovente, eu fiquei com o coração pequeno de ler. Continuasse nessa toada, ia ser um dos meus livros preferidos. Mas aí tem toda uma história de redenção. De se livrar do passado, de "encarar seus fantasmas" -- é pra ler as aspas com tom sarcástico porque é way cheesy isso. Foi aí que eu pensei: é pra virar filme. Não que não haja bons livros que tenham virado filmes. Por exemplo, O Senhor dos Anéis (ótimo livro, ótimo filme). Ou... não sei dizer agora, deu branco... A casa dos espíritos (livro muito melhor que o filme). As horas (filme melhor que o livro). E me deu pena de eu ter investido meus sentimentos e tempo e olhos pra esse livro. Mas ouquei. Quem sabe o próximo do autor, que já é um mega sucesso? Eu dou segunda chance pra todo mundo.

Sobre o Afeganistão também. A história é contada por uma voluntária que era cabeleireira numa cidadezinha nos Estados Unidos e que acaba indo pro Afeganistão pra colaborar no período pós-talibã. Os voluntários criaram uma escola de beleza que seleciona mulheres afegãs para serem alunas e conseguirem abrir seus próprios salões quando se formam. O livro conta algumas das histórias das alunas. As dificuldades e tal. Acho bacana essa soliedariedade que moveu a cabeleireira. Ainda mais vinda de uma mulher que, me pareceu lendo o livro, tem uma visão bem limitada do mundo. Achei, pelo menos, bem intencionada. Criei até uma simpatia. Mãs. Tem um documentário em que a autora aparece. E pelo pouquinho que aparece, fiquei assustada. Ela aparece dizendo "gente, vocês têm que ser modernas e arrojadas! Têm que lançar moda, fazer furor!" E as moças dizem: "se a gente aparecer de maquiagem em casa a gente é chutada pra fora e toma uma surra em público. É muito horror e desonra." Né? Acho legal querer ajudar, desde que a ajuda esteja embasada em informação. Muita. Boa intenção não basta. Tem que haver compreensão cultural também. Detesto essa coisa de querer impor valores culturais. Totalmente desrespeitoso e incoerente com o caminhar da história, eu acho. Não dá pra chegar lá e fazer todas as mulheres queimarem, sei lá, os véus. Porque as mudanças, se houver, devem ser internas, não impostas. Obrigar as mulheres a mudarem, a enfrentarem o medo. À força. Quem sabe elas precisem de mais tempo? Ou não seja a hora delas mudarem nada? Quem somos nós pra querer impor nosso jeito de ver o mundo? Nosso jeito é melhor? Ou é só diferente? Há outros problemas também. As mulheres cujas histórias são contadas no livro se sentem ameaçadas (mesmo não sendo identificadas por seus nomes reais) porque elas contam coisas bem pessoais que, na cultura afegã, deveriam ser guardadas pra si. Segundo esse artigo na NPR (resumido por escrito, mas mais completo se você clicar pra ouvir), a autora saiu do país depois que lançou o livro e não contribuiu com as mulheres como havia prometido. Desertou. Cadê a boa intenção agora que ela ganhou uma grana com o livro e que o livro vai virar filme (parece que com a Sandra Bullock) e, com o qual ela vai ganhar ainda mais dinheiro? Acho que era pra ser um livro do tipo: uau, eu fui lá e fiz e aconteci e estou levando os ventos da democracia e da liberadade para esse país tão longínquo. Pra mim, parece que acabou em fiasco. O livro, escrito por ghost writer, é do tipo de coisa que eu esperaria ver na Oprah. Tipo, aquele tipo de informação básica mesmo -- e que tem o seu papel, o de despertar curiosidade. Mas que não vai mais longe que isso.

12.11.07

Só consigo pensar na fogueirinha

dos fins-de-semana. A gente senta lá fora no frio, com alguma coisa pra beber e conta (no meu caso, ouve) histórias. As roupas ficam todas com cheiro de fumaça. Adoro. * * * Hoje eu trouxe uma sopa de legumes super apimentada que o menino mais lindo do mundo fez. E tomei com biscoitinhos de farinha integral. Eu queria ler na cozinha, que é onde eu leio na minha hora de almoço quando está frio, mas as outras meninas estavam lá e é falta de educação não participar da conversa (ou fingir que). Não consigo. A começar que eu não entendo o sotaque delas. Quando entendo, elas tão falando mal de alguém. Semana passada foi a última de um advogado que foi despedido e sofreu um acidente de carro em que ele quase morreu - não nesse ordem, pra você ver como desgraça pouca é bobagem. As meninas convidaram todas as secretárias menos a D., que era secretária dele - pra um almoço de despedida. A D. ficou triste, claro. Na sexta-feira antes do finde de Natal, eu não vou estar aqui pro grande almoço de fim de ano. A D. fez bico porque eu vou deixar ela all alone com aquelas meninas. * * * Tenho que parar de colocar livros na lista do troço de alugar: tem 82 livros na lista e 4 em casa. Faz 2 semanas que eu estou lendo um livro só. Fora que o correio perdeu 2 livros que eu mandei num envelope com 3. Mandei e-mail pro serviço de aluguel: ó, eu faço tudo direitinho, não quero ficar na lista negra. Mandei 3, vocês receberam 2. Mas eu não fiquei com esse livros em casa. Enquanto eles não resolverem essa situação, eu recebo menos livros do que deveria de acordo com o plano que eu tenho. So unfair.* * * Coloquei um montão de linques novos à direita e troquei a cor de fundo do blogue. Eu adoro azul. Não pra vestir, pra olhar. Mas aquele azul calcinha estava quase indecente de feio. * * * Bent Objects: potinhos de remédio, cenourinhas, rolhas, caixinhas de uvas passas viram pessoinhas e contam histórias. Amei. * * * Adoro quando meu tchefe me pede pra fazer alguma coisa -- achando que eu não tenho nada pra fazer (o que muitas vezes é verdade) -- e eu digo: "Já fiz.". Hoje mesmo ele disse: "You're great". Adoro, né? Beto Marc@ ficou em casa hoje. Pegou um vírus letal. E desse vez é verdade, porque eu vi que ele usou o cartão do escritório na farmácia. 35 dinheiros e uns trocados.

8.11.07

Porque alguém tinha que falar alguma coisa pra D. parar de chorar 3 vezes por semana por qualquer coisa pouca.

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Comprei uma escova de dentes nova.

Como a gente economiza, comprei uma bem barata. Fiquei com medo de quebrar, porque já aconteceu bem quando eu estava escovando os dentes. Mais bicarbonato de sódio. Mas só pode a cada 2 ou 3 dias.* Aliás, aqui vai minha dica de limpeza que é boa pro meio ambiente: fazer limpeza de casa com bicarbonato de sódio, água e esfregação. E diz que vinagre também limpa que é uma beleza, tira gordura. Tem mais dicas se você clicar no linque. Fiquei toda preocupada com o que eu posso fazer pelo meio ambiente porque no sábado à noite isso foi meio papo em volta da fogueira no quintal. É, a gente faz fogueira no quintal, que também não é bom pro meio ambiente. A namorada do roommate junta mais roupa pra colocar na máquina de lavar pra não desperdiçar muita água e energia, em vez de ir lavandinho de pouquinho. Já o próprio roommate ganhou caneca do escritório em que ele trabalha, mas não usa. Prefere copos descartáveis, porque é um saco ter que trazer a caneca pra casa pra lavar. Mas hein? Pra você ver que o meio ambiente é muito importante pra todos nós, mas a gente não quer lavar caneca, e acha luz de lâmpada branca com cara de hospital. Ou, sei lá, gosta da comodidade dos lencinhos umedecidos com produtos de limpeza que matam 99% das bactérias. O máximo do uó - não usar paninhos, eu acho. Já eu fiquei com dor na consciência porque comprei 4 tupperwares na promô. Porque em casa as tampas todas somem. E como é que eu vou levar marmita pro almoço? Plástico leva quadrizilhões de anos pra sumir. Sabia que que cientistas brasileiros inventaram plástico biodegradável a partir de mandioca? Não é incrível? Mas meu irmão me falou que, no fim, é uma empresa alemã que vai fabricar, porque ninguém no Brasil se interessou. Eu googlaria pra confirmar o que meu irmão me disse, mas tô com preguiça. Enfim, preciso comprar talheres na lojinha de tudo-por-1-dólar, pra não usar descartável.


Mas antes da fogueira, a gente foi ver The Darjeeling Limited. Uma fofura, como todos os filmes do Wes Anderson. O menino mais lindo do mundo ama a Índia, quase chorou. Depois ele encheu a cara -- pera, assim parece que ele tem problemas com bebida e ele não tem; então: tomou umas -- em volta da fogueira e quando veio dormir quase chorou de novo porque ele queria me contar como ele tinha quase chorado no cinema. E eu acho reconfortante que Olwen Wilson seja sempre ele em todos os filmes. Tipo filme de Woody Allen. Pra mim tem que ter ou o Woody Allen ou alguém fazendo o papel do Woody Allen. A trilha sonora também é uma graça. Sempre tem The Kinks, né? Parece que ele adora. O Bill Murray aparece por 3 segundos, dá saudade. Depois fomos jantar num restaurante espanhol, mas que a gente achou com cara de besta. Tinha sangria fajuta e as porções eram minúsculas. Tenho bode de porçãozinha. Não precisa ser a desproporção de, sei lá, um café da manhã num diner -- 5 panquecas gigantes que mais parecem com bolos que não deram certo e afinaram, com manteiga, xarope pra panqueca, ovos, bacon, linguiça. Mas eu acho válido sair pra jantar e não passar fome. O porco pururucado estava gostoso. Mas é difícil manter o bom humor quando as pessoas fazem comentários do tipo: "Noooossa, essa lula está divina! Feita exatamente como no Mediterrâneo". Sorte que a essa altura a gente já tinha largado mão porque já tinha bebido toda uma garrafa de vinho.

Anotei todo esse post num bloquinho com folhas cor-de-rosa no domingo à noite. O menino mais lindo do mundo deveria estar escrevendo um paper pro mestrado, mas estava lendo notícias na BBC News. Ele é viciado em BBC News. Os olhos dele estavam lindos, verdes meio com cara de mel. E ele está vestindo uma das minhas camisetas preferidas. Uma japonesa amarela com desenho de fones de ouvido.

*Sonhei outro dia que eu estava passando fio dental, mas o sonho era daqueles em que você faz coisas que sabe que deveria ou que vai fazer, daqueles que cansam em vez de descansar.

6.11.07

Tá, tô começando a ficar assustada

Eu tenho esses roommates, né? E eles têm um nenê. Que é lindo e cuti-cuti, você precisa ver. Mesmo porque eu só vejo o nenê tipo 5 segundos do dia e ele ri pra mim quando eu rio pra ele e falo com ele em português. A mãe dele acabou de descer do quarto e perguntaram se ele tinha trocado de roupa de novo. Ela disse: "He puked!" Bom saber. Quando eu cheguei em casa, o pai dele estava com ele no colo e tinha queijinho -- que sai da barriga de nenês que tomam mamadeira -- por toda a camiseta dele. To. Da. Ontem eles me disserem que esse mesmo nenê tinha vomitado bem na cara do pai dele. Tipo acertando bem o olho esquerdo, bull's eye mema. Esse nenê também tem um problema de babar. O tempo inteiro. E de reclamar. O dia in. Tei. Ro. Ele fica mmmm. Mmmmm. Mmmmm. Mmmmm. Mmmmmm. Quem nem o Billy Crystal em Harry e Sally? Quando ele fica no telefone fazendo de doente? E pra ele ficar sossegado e pra ele não chorar, tem que ficar chacoalhando o chocalho bem na frente dele sem parar.

Adivinha quem vai cuidar desse nenê na quinta à noite?

Porque eu devo favor, né? A roommate me manda e-mail assim: "Você quereria tomar conta do nenê?" Se fosse pra ser sincera, eu ia dizer:

Não. Eu não quereria. Mas vou.

Mas vou, né? Porque eles me pegam na estação de trem 3 vezes por semana: segunda, quarta e quinta. Eu dou presentes de agradecimento. E cartões. Esse mês eu comprei umas roupinhas de frio pro nenê, porque eles tão meio apertados de dinheiro. Parece que eu sou boazinha, né? Mas não sou. Eu sou péssima pessoa. Claro que eu quero agradecer pelo favorzão que eles me prestam. Poota saco chegar em casa e ir ter que buscar a vaca que tá lá na estação e não pega ônibus porque demoraria uns 40 minutos pra chegar em casa, quando de carro leva uns 5.

Mas eu tenho segundas intenções. Não quero trocar o favor "me buscar de carro" pelo favor "ser babá do nenê por 1 segundo". Eu quero ser boazinha porque eu não quero cuidar do nenê. Quer dizer, eu até cuido. Se for no finde. Pra eles jantarem em paz. Ou quando ele acorda gritando e não há cristo que faça parar. Eu vou lá e falo português com ele e sempre funciona. Mas nas quintas à noite, é o dia em que o menino mais lindo do mundo e pai do nenê tocam no barzinho e todo mundo volta tarde. Menos eu. Porque eu fico em casa pra ir dormir cedo, porque eu começo a babar que nem o nenê quando das 11 badaladas. Porque eu quero meu sono reparador. Pra ir trabalhar e não ser um zumbi. Da outra vez, a mãe do nenê ia voltar às 11:30. Depois mudou pra meia-noite. Depois virou meia-noite e meia. E 1 hora. E eu fui dormir. Com o baby monitor ligado no úrtimo. Depois de ter ido vigiar ele no berço trocentas vezes porque ele tava muito quieto. Nessa época ele ainda dormia. Agora parece que esse nenê não dorme mais. Ele só quer ficar acordado pra vomitar. Fazer queijo na roupa dos outros. E resmungar. Socorrro.

S
.
O
.
S
.

Então eu respondi que eu ficaria muito feliz em cuidar do nenê. Mas que eu tenho esse problema de babar às 11 da noite e expliquei essa condiçã quase médica pra ela e pedi pra ela não voltar tarde. Por favor.

Eu sei. Eu sou péssima pessoa. Eu me sinto mal só de ver como eu sou egoísta. Ãin. Eu vou amar cuidar do nenê. Eu vou amar cuidar do nenê. Não pode ser tão ruim, né? Ele é fofo. Ele ri pra mim. Ele nunca fez cocô quando estava sob meus cuidados. Ele sempre foi um ótimo nenê comigo. Esse nenê me faz querer ser uma pessoa melhor.

Agorinha mesmo, lá embaixo

-- Licença. You do music? Or arts?
-- Não?
-- You've got the looks for that.

Nem agradeci, porque eu não sabia se era pra. Tenho cara de artista? Ou esse suéter preto, calça jeans skinny (sendo que eu mesma não sou), com botas pretas peludas por dentro têm tipo cara de fantasia? Prefiro achar, né?, que eu tenho cara de artista.

* * *

Meu tchefe me pediu pra levar pra ele a malinha da academia e o iPod dele na porta do prédio. Ele foi embora às 3, mas disse que voltava logo. Por algum estranho motivo, ele não consegue simplesmente me dizer que tá indo embora, sem inventar alguma coisa. Dor de barriga, cabeça, ou coisas do gênero.

5.11.07

Sexta-feira não tirei o cachecol

desde que eu cheguei. Antes de subir pro escritório, passei na cafeteria pra comprar um café com gosto de hazelnut e qualquer coisa pra comer. A qualquer coisa geralmente é uma barrinha de cereais ou uma banana. Passei umas 3 semanas sem ter que comprar nada, porque a D. começou a fazer dieta e me deu todas as barrinhas que ela tinha em casa. O senhorzinho totoquinho - não estou bem certa se ele mora na rua - que ganha café lá embaixo desejou feliz dia de ação de graças pra todo mundo. Ainda faltam 3 semanas pro Dia de Ação de Graças.

Desde que eu comecei a trabalhar, recomecei a tomar café, hábito que eu tinha abandonado porque eu não tinha motivo pra ter que ficar super alerta. Em casa, no Brasil, eu tomava café trocentas gazilhões de vezes por dia. Meus dentes ficam manchados de marrom, especialmente um dente da frente. É nojento. Eu tento sorrir sem mover o lábio inferior. Já notei que, apesar de eu escovar os dentes com bicarbonato de sódio como a dentista recomendou, meus dentes estão voltando a ficar manchados. Além disso, eu não tirei meus dentes do siso e ainda tenho os quatro. Eles estão empurrando os outros colegas e minha arcada dentária está superlotada. Eu tenho medinho de ter que tirar os dentes. Quer dizer, eu sei que eu tenho que tirar - faz um ano que minha dentista mandou eu tirar os dentes, mas eu estava vindo pra cá e não ia dar tempo de cicatrizar e com as mudanças de condições de temperatura e pressão, eu ia sangrar até morrer no avião. Modos que. Quem aí já tirou os dentes do siso levanta a mão, ou põe o dedo aqui que lá vai fechar e me conta como foi?

Meu tchefe não veio. Só escrevi uma cartinha, conferi a contabilidade do mês (quer dizer, olhar o extrato do banco e conferir se coloquei tudo direitinho no programinha de contabilidade) e lambi uns envelopes and I was done for the day. Fui fazer terapia (à la Renata) na farmácia/loja de conveniência. Comprei pó bronzeador, base em pó mineral, um pincel, xampu e um brilho que parece aquele que vem num moranguinho, sabe? Pois. Só falta saber usar tudo isso. Depois meu tchefe me ligou deprimido porque eu liguei pra ele e deixei recado que não tinha dinheiro na conta, que ele precisava botar dinheiro pra gente pagar o aluguel. E fiquei consolando. Que ele fez um acordo e vai entrar dinheiro, e ele colocou anúncio num jornal em espanhol. Outro dia ele veio falar comigo:

-- Ó, o cara do jornal vem tirar foto pro anúncio.
-- Ouquei.
-- E aí, eu queria te pedir pra vir mais bem vestida.
-- ...
-- Uhm, não! Não que eu achei que normalmente você não se vista bem.
-- ...
-- Mas você entende, né? O que eu tô querendo dizer?

Acho que ele anda convivendo muito com mulheres. Já antecipando a frescura feminina e quase pedindo desculpas por (não) dizer que eu não me visto mal. Eu não quero sair no anúncio, mas ouquei. Como eu não sabia quando o homem do jornal vinha, vim uns 4 dias super bem vestida. Tipo usando bota de salto alto e essas coisas. Depois desisti, e comecei a me vestir como sempre: tênis Adidas, o moleton branco que eu achei por 5 dólares na promô, a calça de veludo marrom que vai caindo porque eu ainda não comprei cinto e não sei comprar isso pela internet porque eu não tenho idéia de qual seja o tamanho de cinto que eu preciso. E algumas variações do tema.

E só pra terminar o post com um pensamento bem aleatório, adoro esse Dove de pepino. E adoro o hidratante sabor pepino também. Fico com cheiro de limpinha.

1.11.07

Livros que amei (ou não) e a sopa de fubá

Cansada de não pensar, de evitar pensamentos que envolvessem mais que duas sinapses, coloquei esse livro na minha lista. Também porque é totalmente diferente do que eu leria e de um autor de quem eu nunca na vida ouvi falar. Meu roommate viu a capa e disse que teve uma entrevista com o autor na NPR, a rádio pública, que é ótima, por sinal.

Não conhecia o autor, o tema não era dos mais inspiradores - um tiozão que acaba pedindo demissão do emprego que tem na The New Yorker - um empregão, diga-se: ele era editor* - pra fazer estágio não-remunerado num restaurante de um chef ítalo-americano famosão, o Mario (que Mario?), cuja foto acabei de ver. A foto quase me fez ter uma síncope - não era essa a imagem que eu tinha do personagem. Haver personagens na vida real às vezes é legal, às vezes é um espanto. Quem é esse sapo? Lendo biografia, sei lá, do D. Pedro: legal. Do Einstein? Supimpa. Lendo um livro de capa amarela: um horror. Eu imaginei as pessoas de quem o autor conta as histórias totalmente diferentes do que elas são. O chef, na minha imaginação, era um homão alto, com cabelo castanho escuro preso num rabo de cavalo, ligeiramente a cima do preso, charmoso, com aquele ar de "eu sei cozinha-ar, você não sa-bê". Mais ou menos como ver foto de radialista. Você passa a vida ouvindo, sei lá, o Salomão Schwartzman, imaginando a figura dele através da voz e do que ele tem a dizer, e só se arrepende quando resolve googlar fotos. (No caso, 1 segundo atrás).

O livro mistura a vida de estagiário do autor, com a vida do tal chef. Mistura autobiografia com biografia. Quem é que quer saber da vida do tal chef, especialmente quando nunca se ouviu falar (viu) de criatura mais acima do peso (mais gordo)? (Aliás, ele é mesmo chonchudo, mas muito mais do que eu imaginava quando eu lia o livro). Eu não queria, mas resisti. A história é engraçada, é emocionante do tipo ooooon, é interessante porque conta história da comida (eu adoro história de qualquer coisa) e, tenho que confessar, eu até chorei numa parte. Por isso eu digo: isso é que é livro bom. Eu não dava nem um papel de bala por ele, mas ele acabou me conquistando pra sempre, a despeito das minhas ilusões desfeitas depois de ver fotos (nesse caso, leia o livro, não veja as fotos e não veja o filme, porque não há).

Depois de começar a trabalhar na cozinha desse restaurante super tchãs, o Bill resolve aprender muito mais do que cozinhar macarrão e cortar cenoura em cubinhos perfeitamente simétricos. Ele resolve seguir os passos do chef em busca de... não sei, acho que foi em busca de satisfazer a curiosidade dele sobre comida. Não foi uma coisa assim stalker (vou fazer tudo o que ele fez pra me sentir na vida dele), mas a curiosidade do chef a respeito da boa cozinha é que acabou levando o autor a ir conhecer todos os "gurus", na Europa, que foram responsáveis pela educação culinária do Mario. Mais do que o prazer de descobrir coisinhas sobre a história de alguns pratos, o modo tradicional de fazer uma boa polenta ou de preparar tortellini, as pessoas são fascinantes. São mesmo. Parece brega dizer isso, que o que importa são as pessoas, mas tem um bando de gente excêntrica nesse livro, todas elas apaixonadas pelo que fazem - comida boa - independente de quanto ganhem com isso e, o que é mais legal, elas não são inventadas, são reais.

Há também imagens lindas, que dão quentinho no peito. Por que fazer ragu leva tanto tempo? Porque era feito dentro de casa, no fogão à (crase?) lenha, quando estava frio. Matavam dois - três! - coelhos de uma vez: preparava-se comida, esquentavam a casa e as pessoas vinham pra perto do fogo conversar. Também tem a história das receitas serem herdadas, receitas de 500 anos, que vêm da tataravó da sua bisavó. Cada família tem uma. E não é? Eu aprendi a fazer arroz desse jeito com a minha mãe. Não tem caldo de carne, tem que refogar o arroz até ficar branquinho, no alho, e água pra cobrir o arroz mais a falangeta do indicador. Fogo alto até ferver, fogo baixo até o arroz parar de chiar. Se não está soltinho, embrulha em jornal e coloca no forno (desligado). Essa última parte era dica da minha vó Izaura. Às vezes eu acordo e quero comer charuto, receita da minha mãe. Ou cozido de inhame japonês (da minha batchan). A gente come, e quer repetir, o que a gente aprendeu e cresceu comendo. Aprendi a cozinhar pra 6 pessoas, e não 4, nem 2. Só faço comida com medidas pra batalhão. Minha mãe até hoje faz feira pra 6, mas só cozinha pra ela e pro meu pai (a Cuca está proibida de comer qualquer coisa misturada na ração light hipoalergênica) dela.

Falando em receitas, voltei pra casa dias atrás com um post-it no meio de um livro dizendo
4 colheres de sopa de fubá
2,5 l de água
Achei ridículo. Não me passou a menor confiança. Achei logo que não ia dar certo. Resolvi sair em busca da receita perdida da sopa de fubá. Coloquei uma xícara de fubá, do mais grossinho, não do mimoso. E fui testando. Deixei no fogo alto, pra engrossar e eu conseguir corrigir a consistência. Primeiro, queria virar uma polenta um pouco mais mole. Coloquei mais água. Nessa altura, eu ainda estava contando quantas xícaras de água eu estava colocando, porque eu lembrei que ia colocar a receita aqui. Depois, perdi a conta e a medida virou 1 xícara de fubá pra panelona que a gente tem cheia de água, o que dá, mais ou menos, umas 13 xícaras de água. Então eu acho que é por isso que não tem receita pra essas coisas, porque a gente vai vendo, vai acertando, vai colocando mais tempero, mais água, pimenta vermelha do quintal, acertando o fogo. Às vezes deixa borbulhar, às vezes mistura bem. E, lógico, gentê, que eu coloquei couve. Tem que ter, né? Minha mãe, minha guru gastronômica, colocaria cambuquira (delícia das delícias), mas nem sei se tem isso aqui.

* Outra coisa sobre que eu fiquei pensando e sobre a qual eu conversei com o menino mais lindo do mundo. Abundam as histórias de gentes que largam seus 9 to 5 jobs, por assim dizer, "pra seguirem seu sonho". Outro dia a gente leu um blog de uma moça que era diretora executiva de não sei onde e que pediu demissão pra virar escritora (às custas, imagino, de gastar poupança e contar com a renda do marido). Acho lindo que as pessoas confiem nos seus talentos, mas na verdade, essa história de largar tudo e sejogar é só para os muito bem-de-vida ou pra quem tem suporte da família (eu me incluo nessa, ouquei?). Mas ficamos um pouco de bode com histórias do tipo "vale a pena! Só precisa arregaçar as mangas e mandar ver! O Universo conspira a seu favor". Mentira. Vamos acabar com essa pataquada. Pra seguir o seu sonho - ai, so cheesy - é preciso também haver alguma fonte de renda. Não é só de sonho que se vive. Mas isso é só uma nota de rodapé. Porque o livro é sobre comida e não sobre "como largar seu emprego e sua vida estável e ser feliz". Mesmo porque, ele pode - tinha um empregão e a renda da mulher.