14.11.07

Livros que amei (ou não)

No dia em que eu fui ver o último filme do Wes (o Darjeeling), eu vi o trailer do The Kite Runner. Todo um problema com esse filme. Um dos atores que faz o papel do menino que fica no Afeganistão, que é do Afeganistão mesmo, tem que fazer uma cena em que ele é estuprado (no Brasil, não é estupro, é atentado violento ao pudor: rá!, meus tempos de adEvogada...). Mas o menino não sabia dessa cena -- antes das gravações começarem -- e ficou com medo de a tribo dele se voltar contra ele, com violência mesmo. Que ele pode virar um pária social, não só pela confusão entre realidade e ficção, que não é fácil de distinguir pra essas pessoas tão simples, mas porque há esse conflito entre Hazaras e Pashtuns. Ele é Hazara. O herói do filme é Pashtun. O pai pediu pra cena ser tirada ou pra nem ser gravada. Acho que não tiraram.

Outro dia, em volta da fogueirinha, a gente (eu só ouvi, mais uma vez) discutiu isso. Um disse que era melhor que a família desse menino tivesse alguma oportunidade, mesmo que significasse ostracismo social ou ainda pior. A Porque pra eles pode ser uma questão de ter o que comer ou não. Ter esse cachê ou passar fome, mesmo que eles tenham que se submeter a fazer o que não querem. O que é melhor, esse roommate dizia: ter esse tipo de escolha ou não ter escolha? Quer dizer, a gente nem vislumbra mais qualquer decência quando pensa em como é que a economia funciona, o mercado? A gente só se limita a pesar o ruim com o pior? Não se cogita mais sobre o que é correto e honesto? Uma coisa meio derrotista/conformista mesmo: é assim que a economia funciona. A gente não se revolta mais?
Outro exemplo que ele deu foi de, por exemplo, trabalhadores rurais que não são informados sobre os produtos químicos com que estão lidando, que são prejudiciais. O que é melhor? Que eles não trabalhem at all ou que eles tenham esse tipo de trabalho? Mais uma vez não se cogitou sobre o correto, deu-se o errado por vitorioso.

Olha, gentê, vou ter que dizer não, não amei esse livro que, enquanto filme, deve ser bom pra se ver comendo pipoca quando já estiver passando na tevê. Foi exatamente o que eu pensei quando eu li o livro, faz uns meses. Eu gosto dessas histórias meio com cara de saga. Histórias que acompanham os personagens por muitos anos. A primeira parte do livro é realmente linda. É triste, é comovente, eu fiquei com o coração pequeno de ler. Continuasse nessa toada, ia ser um dos meus livros preferidos. Mas aí tem toda uma história de redenção. De se livrar do passado, de "encarar seus fantasmas" -- é pra ler as aspas com tom sarcástico porque é way cheesy isso. Foi aí que eu pensei: é pra virar filme. Não que não haja bons livros que tenham virado filmes. Por exemplo, O Senhor dos Anéis (ótimo livro, ótimo filme). Ou... não sei dizer agora, deu branco... A casa dos espíritos (livro muito melhor que o filme). As horas (filme melhor que o livro). E me deu pena de eu ter investido meus sentimentos e tempo e olhos pra esse livro. Mas ouquei. Quem sabe o próximo do autor, que já é um mega sucesso? Eu dou segunda chance pra todo mundo.

Sobre o Afeganistão também. A história é contada por uma voluntária que era cabeleireira numa cidadezinha nos Estados Unidos e que acaba indo pro Afeganistão pra colaborar no período pós-talibã. Os voluntários criaram uma escola de beleza que seleciona mulheres afegãs para serem alunas e conseguirem abrir seus próprios salões quando se formam. O livro conta algumas das histórias das alunas. As dificuldades e tal. Acho bacana essa soliedariedade que moveu a cabeleireira. Ainda mais vinda de uma mulher que, me pareceu lendo o livro, tem uma visão bem limitada do mundo. Achei, pelo menos, bem intencionada. Criei até uma simpatia. Mãs. Tem um documentário em que a autora aparece. E pelo pouquinho que aparece, fiquei assustada. Ela aparece dizendo "gente, vocês têm que ser modernas e arrojadas! Têm que lançar moda, fazer furor!" E as moças dizem: "se a gente aparecer de maquiagem em casa a gente é chutada pra fora e toma uma surra em público. É muito horror e desonra." Né? Acho legal querer ajudar, desde que a ajuda esteja embasada em informação. Muita. Boa intenção não basta. Tem que haver compreensão cultural também. Detesto essa coisa de querer impor valores culturais. Totalmente desrespeitoso e incoerente com o caminhar da história, eu acho. Não dá pra chegar lá e fazer todas as mulheres queimarem, sei lá, os véus. Porque as mudanças, se houver, devem ser internas, não impostas. Obrigar as mulheres a mudarem, a enfrentarem o medo. À força. Quem sabe elas precisem de mais tempo? Ou não seja a hora delas mudarem nada? Quem somos nós pra querer impor nosso jeito de ver o mundo? Nosso jeito é melhor? Ou é só diferente? Há outros problemas também. As mulheres cujas histórias são contadas no livro se sentem ameaçadas (mesmo não sendo identificadas por seus nomes reais) porque elas contam coisas bem pessoais que, na cultura afegã, deveriam ser guardadas pra si. Segundo esse artigo na NPR (resumido por escrito, mas mais completo se você clicar pra ouvir), a autora saiu do país depois que lançou o livro e não contribuiu com as mulheres como havia prometido. Desertou. Cadê a boa intenção agora que ela ganhou uma grana com o livro e que o livro vai virar filme (parece que com a Sandra Bullock) e, com o qual ela vai ganhar ainda mais dinheiro? Acho que era pra ser um livro do tipo: uau, eu fui lá e fiz e aconteci e estou levando os ventos da democracia e da liberadade para esse país tão longínquo. Pra mim, parece que acabou em fiasco. O livro, escrito por ghost writer, é do tipo de coisa que eu esperaria ver na Oprah. Tipo, aquele tipo de informação básica mesmo -- e que tem o seu papel, o de despertar curiosidade. Mas que não vai mais longe que isso.

5 comentários:

  1. Pô, Inhone. Assim você me decepciona. Libere a crítica pós-moderna que existe em você e compreenda como a mocinha na verdade é a autora que proporcionou a reflexão mais aguda sobre a atuação dos EUA no Afeganistão (e, por extensão, a postura do Ocidente em relação ao Oriente). Ela sacrificou a própria respeitabilidade só pra fazer da sua vida uma metáfora da política externa americana. Que outro escritor faz isso hoje em dia? E você ainda diz que ela é cabeça-oca.

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  2. Tudo pela cultura e pela política, ném?

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  3. Então menina, tirando o fato q eu me escangalhei de lágrimas no Caçador de Pipas (que confesso qeu "Kite Runner" me lembrou mto mais "Blade Runner" que qualquer outra coisa!!!), gostei bastante do livrinho, sim... e ficarei bem feliz se o filme for bom, e não virar nenhuma daquelas adaptações chatéeerimas que resolvem fazer.
    Contanto que sirva pras pessoas pararem de falar "SEU FANFARRÃO!", eu suplico que venha logo !

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  4. Nossa Inhone, tentei me atualizar no seu blog, de não. Muuuuuitos posts... Vou fazer parceladin.

    Quando vc vem para terras tupiniquins novament?

    Beijos

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  5. Que bom que vc voltou!!! Está melhor agora?? Já estava com saudades!
    Um beijinho e obrigada pelos parabéns!

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