1.11.07

Livros que amei (ou não) e a sopa de fubá

Cansada de não pensar, de evitar pensamentos que envolvessem mais que duas sinapses, coloquei esse livro na minha lista. Também porque é totalmente diferente do que eu leria e de um autor de quem eu nunca na vida ouvi falar. Meu roommate viu a capa e disse que teve uma entrevista com o autor na NPR, a rádio pública, que é ótima, por sinal.

Não conhecia o autor, o tema não era dos mais inspiradores - um tiozão que acaba pedindo demissão do emprego que tem na The New Yorker - um empregão, diga-se: ele era editor* - pra fazer estágio não-remunerado num restaurante de um chef ítalo-americano famosão, o Mario (que Mario?), cuja foto acabei de ver. A foto quase me fez ter uma síncope - não era essa a imagem que eu tinha do personagem. Haver personagens na vida real às vezes é legal, às vezes é um espanto. Quem é esse sapo? Lendo biografia, sei lá, do D. Pedro: legal. Do Einstein? Supimpa. Lendo um livro de capa amarela: um horror. Eu imaginei as pessoas de quem o autor conta as histórias totalmente diferentes do que elas são. O chef, na minha imaginação, era um homão alto, com cabelo castanho escuro preso num rabo de cavalo, ligeiramente a cima do preso, charmoso, com aquele ar de "eu sei cozinha-ar, você não sa-bê". Mais ou menos como ver foto de radialista. Você passa a vida ouvindo, sei lá, o Salomão Schwartzman, imaginando a figura dele através da voz e do que ele tem a dizer, e só se arrepende quando resolve googlar fotos. (No caso, 1 segundo atrás).

O livro mistura a vida de estagiário do autor, com a vida do tal chef. Mistura autobiografia com biografia. Quem é que quer saber da vida do tal chef, especialmente quando nunca se ouviu falar (viu) de criatura mais acima do peso (mais gordo)? (Aliás, ele é mesmo chonchudo, mas muito mais do que eu imaginava quando eu lia o livro). Eu não queria, mas resisti. A história é engraçada, é emocionante do tipo ooooon, é interessante porque conta história da comida (eu adoro história de qualquer coisa) e, tenho que confessar, eu até chorei numa parte. Por isso eu digo: isso é que é livro bom. Eu não dava nem um papel de bala por ele, mas ele acabou me conquistando pra sempre, a despeito das minhas ilusões desfeitas depois de ver fotos (nesse caso, leia o livro, não veja as fotos e não veja o filme, porque não há).

Depois de começar a trabalhar na cozinha desse restaurante super tchãs, o Bill resolve aprender muito mais do que cozinhar macarrão e cortar cenoura em cubinhos perfeitamente simétricos. Ele resolve seguir os passos do chef em busca de... não sei, acho que foi em busca de satisfazer a curiosidade dele sobre comida. Não foi uma coisa assim stalker (vou fazer tudo o que ele fez pra me sentir na vida dele), mas a curiosidade do chef a respeito da boa cozinha é que acabou levando o autor a ir conhecer todos os "gurus", na Europa, que foram responsáveis pela educação culinária do Mario. Mais do que o prazer de descobrir coisinhas sobre a história de alguns pratos, o modo tradicional de fazer uma boa polenta ou de preparar tortellini, as pessoas são fascinantes. São mesmo. Parece brega dizer isso, que o que importa são as pessoas, mas tem um bando de gente excêntrica nesse livro, todas elas apaixonadas pelo que fazem - comida boa - independente de quanto ganhem com isso e, o que é mais legal, elas não são inventadas, são reais.

Há também imagens lindas, que dão quentinho no peito. Por que fazer ragu leva tanto tempo? Porque era feito dentro de casa, no fogão à (crase?) lenha, quando estava frio. Matavam dois - três! - coelhos de uma vez: preparava-se comida, esquentavam a casa e as pessoas vinham pra perto do fogo conversar. Também tem a história das receitas serem herdadas, receitas de 500 anos, que vêm da tataravó da sua bisavó. Cada família tem uma. E não é? Eu aprendi a fazer arroz desse jeito com a minha mãe. Não tem caldo de carne, tem que refogar o arroz até ficar branquinho, no alho, e água pra cobrir o arroz mais a falangeta do indicador. Fogo alto até ferver, fogo baixo até o arroz parar de chiar. Se não está soltinho, embrulha em jornal e coloca no forno (desligado). Essa última parte era dica da minha vó Izaura. Às vezes eu acordo e quero comer charuto, receita da minha mãe. Ou cozido de inhame japonês (da minha batchan). A gente come, e quer repetir, o que a gente aprendeu e cresceu comendo. Aprendi a cozinhar pra 6 pessoas, e não 4, nem 2. Só faço comida com medidas pra batalhão. Minha mãe até hoje faz feira pra 6, mas só cozinha pra ela e pro meu pai (a Cuca está proibida de comer qualquer coisa misturada na ração light hipoalergênica) dela.

Falando em receitas, voltei pra casa dias atrás com um post-it no meio de um livro dizendo
4 colheres de sopa de fubá
2,5 l de água
Achei ridículo. Não me passou a menor confiança. Achei logo que não ia dar certo. Resolvi sair em busca da receita perdida da sopa de fubá. Coloquei uma xícara de fubá, do mais grossinho, não do mimoso. E fui testando. Deixei no fogo alto, pra engrossar e eu conseguir corrigir a consistência. Primeiro, queria virar uma polenta um pouco mais mole. Coloquei mais água. Nessa altura, eu ainda estava contando quantas xícaras de água eu estava colocando, porque eu lembrei que ia colocar a receita aqui. Depois, perdi a conta e a medida virou 1 xícara de fubá pra panelona que a gente tem cheia de água, o que dá, mais ou menos, umas 13 xícaras de água. Então eu acho que é por isso que não tem receita pra essas coisas, porque a gente vai vendo, vai acertando, vai colocando mais tempero, mais água, pimenta vermelha do quintal, acertando o fogo. Às vezes deixa borbulhar, às vezes mistura bem. E, lógico, gentê, que eu coloquei couve. Tem que ter, né? Minha mãe, minha guru gastronômica, colocaria cambuquira (delícia das delícias), mas nem sei se tem isso aqui.

* Outra coisa sobre que eu fiquei pensando e sobre a qual eu conversei com o menino mais lindo do mundo. Abundam as histórias de gentes que largam seus 9 to 5 jobs, por assim dizer, "pra seguirem seu sonho". Outro dia a gente leu um blog de uma moça que era diretora executiva de não sei onde e que pediu demissão pra virar escritora (às custas, imagino, de gastar poupança e contar com a renda do marido). Acho lindo que as pessoas confiem nos seus talentos, mas na verdade, essa história de largar tudo e sejogar é só para os muito bem-de-vida ou pra quem tem suporte da família (eu me incluo nessa, ouquei?). Mas ficamos um pouco de bode com histórias do tipo "vale a pena! Só precisa arregaçar as mangas e mandar ver! O Universo conspira a seu favor". Mentira. Vamos acabar com essa pataquada. Pra seguir o seu sonho - ai, so cheesy - é preciso também haver alguma fonte de renda. Não é só de sonho que se vive. Mas isso é só uma nota de rodapé. Porque o livro é sobre comida e não sobre "como largar seu emprego e sua vida estável e ser feliz". Mesmo porque, ele pode - tinha um empregão e a renda da mulher.

8 comentários:

  1. "Mas ficamos um pouco de bode com histórias do tipo "vale a pena! Só precisa arregaçar as mangas e mandar ver! O Universo conspira a seu favor." Mentira. Vamos acabar com essa pataquada. Pra seguir o seu sonho - ai, so cheesy - é preciso também haver alguma fonte de renda."

    Discordo, lógico.

    Mais de metade das coisas é teimosia ou obstinação, como você preferir. Um outro tanto é virtude, coragem. Resta pouco para fontes de renda – que se inventam, se criam, se resolvem.

    Darn... O sistema do trapézio não funciona...

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  2. E como dizia tia Virginia, pra escrever uma moça precisa ter no mínimo seu próprio quarto para morar.

    Eu acredito em trabalhar metade do tempo pra sustentar seus sonhos na outra metade. Acho que chego lá.

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  3. Rafa, acho que coragem e obstinação são necessárias. Mas só isso não basta. Há que haver um teto? E comida? Alguma fonte de renda?

    Marcos, essa sua receita parece boa.

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  4. eu gostei do rodapé. acho super mimado isso. super mesmo. de largar tudo e tal. mesmo pq a maioria dos empregos existentes nao sao o nosso sonho. entao é simples matematica.

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  5. Mary W! Você aqui! Fico feliz. Eu não acho necessariamente mimado. Acho que é ouquei largar as coisas se se pode contar com ajuda financeira de alguém, ou bolsa, ou com suas próprias reservas. Só acho besta quem diz que *basta* largar tudo. Não basta. Não é assim que a gente vai atrás do que quer. Não basta largar as coisas como elas eram e recomeçar. Exige planejamento, dor-de-cabeça e sacrifícios, para a maior parte dos mortais. E acho quase irresponsável que haja pessoas que digam que o maior problema é só resolver largar as coisas, como se todo o resto se resolvesse por mágica. O mundo não é feito de momentos mágicos, talento, curiosidade e vontade, mas muito de praticalidades. E deixar de mencionar isso é que me dá bode.

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  6. Concordo que precisa de um suporte e uma fonte de renda pra irmos atrás de outras coisas...to falando por experiência própria. Mas que é bom demais poder largar tudo e ia atrás de outras coisas, ninguém pode negar, né???
    beijos

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  7. Eu gostaria de viver viajando. Eu gostaria de poder voltar no tempo e cmeçar uma carreira como jornalista de turismo. Mas não dá, porque eu já tenho minha "carreira", e pra começá-la eu passei por inúmeros perrengues financeiros e psicológicos. Pra começá-la eu tive que abrir mão de um emprego estável, onde eu tinha benefícios e era registrada. Para isso, eu contei com FGTS e essas coisas, e é aí que entra o que vc escreveu. Não tem como largar tudo se você não tem quem te ajude, se vc não tem a "questã" do dinheiro. Eu sou quase arrimo de família, não posso simplesmente pensar "quero largar tudo agora" e ir, porque além d'eu me ferrar, ainda ferro com a minha mãe.

    Esse era um dos pontos mais difíceis do meu ex entender. Porque ele tem uma família que o apóia em tudo que ele fizer, tudo mesmo. É lindo demais isso. Mas ficava difícil pra ele compreender que não, eu não posso largar tudo agora e recomeçar e estudar de novo e ser estagiária, pra só aos 30 e caralhos eu começar a ser repórter de turismo. Além disso, eu gosto do que faço, de coração. Nunca discutimos sobre isso, é claro. Mas essa distância de mundos é difícil de transpor. Porque pra quem tem apoio familiar irrestrito, é realmente só falar "vou seguir meu sonho". Eu tenho que ser pé no chão.

    No entanto, eu acho que, se não dá pra largar tudo e virar a própria mesa (haha, isso é título de livro chato), com certeza dá pra tentar ser feliz. Fazer coisas alternativas que te tragam prazer, paralelamente ao trabalho que não satisfaz. O que vc acha?

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  8. Renata, havendo a possibilidade de ir atrás, é claro que é ótimo! :)

    Chu, acho que há um pouco a tendência de querer ser feliz no trabalho, o que não é necessariamente verdade (quase nunca, aliás), pra grande maioria das pessoas. Porque a grande maioria das pessoas simplesmente tem que trabalhar pra subsistir, não vou nem falar de lazer e alguns luxos. Só pra ter teto e comida. Então eu acho que a Mary W até tem razão quando ela diz que pode ser coisa de gente mimada, que quer ser feliz no trabalho. Eu fui mimada. Eu larguei meu emprego de advogada e tentei ser professora de inglês. Minha família me ajudou, claro, se não, com o dinheiro que eu ganhava, eu ia morar num quartinho alugado na periferia mais longínqua.

    Não sei se parece derrotista, ou coisa de gente sem esperança, mas espero que não seja. Uma hora caiu essa ficha de que não é preciso estar totalmente satisfeito no trabalho. Que trabalho poder ser um meio para os fins. Os fins sendo casa, comida, lógico, e o que mais se quiser e puder pagar com o que se ganha. Os prazeres da vida, sejam eles quais forem: voluntariar, desenhar, passear, viajar, ler, o que seja. E acho que é assim que agora eu vou tentar ser feliz. Tentando conciliar tudo.

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