17.9.07

Mão de vaca

Sou deveras mão de vaca. Não sei por quê eu sou assim. Acho que os ensinamentos de meu pai marxista ficaram guardados pra sempre dentro de mim. Eu sou o que eu produzo, né isso? Como criança só produz desenhos e brincadeiras e risadas e bagunça, tive que agüentar as consequências. Na escola, eu era a única que tinha a calça jeans santropeito da moda que não era de marca, o tênis da moda que não era de marca, essas coisas. Genéricos. Sabe?, os sofrimentos tão dolorosos de uma caçula de classe média com pai que é marxista. Eu já contei da Barbie, né?(*) Pra você ter uma idéia das cicatrizes emocionais, gentê.

Eu tenho necessidade de economizar. O plano é fazer comida todo dia e trazer marmita no dia seguinte. A gente gasta uns... 90 dólares (em média) pra fazer comida de segunda até quinta. Fico passando privações no setor lazer (como se, né?, eu fosse gastar muito dinheiro pra ir, sei lá, dançar ou assistir filmão no cinema). Aí pra economizar com livros (paperback custa uma média de 14 dólares cada, tornando proibitivo o hábito da leitura pra pessoas que não ganham muitos dinheiros e gostam muito de ler), eu assinei Bookswim, que é um serviço de aluguel de livros. O acervo ainda não é dos maiores, tô tendo muita dificuldade de encontrar coisas que eu realmente queira ler. Aí, né, gentê?, faz um favor? Dá uma olhada e me diz o que você leria. Pra fazer o dinheiro valer. Deixe sua dica, ixifaizfavoire.
(*) Dezembro 5, 2002
Coisas inúteis sobre mim mesma que eu poderia não contar para ninguém mas que eu vou contar mesmo assim XIX

Descobri toda a fonte de meus problemas. Dizia ontem meu amigo Didi que os narcisistas sofreram qualquer coisa durante a infância que o fizeram tornarem-se adultos assim (ficou de me mandar o texto que leu a respeito). Meu trama foi não ter ganhado uma boneca Barbie enquanto era tempo. No recreio, as meninas se reuniam, davam as mãos, carregando na outra, que não estava enlaçada com a mão da amiga, uma sacolinha com apetrechinhos pink e de lamê. Mas eu, não tinha a quem dar a mão, porque aparecia com uma Susi que tinha pertencido à minha irmã, apenas 12 anos mais velha que eu. E o que são 12 anos para uma criança?

As meninas faziam uma roda para dramatizar situações. A Susi, aquela bonequinha cabeçuda e que ainda por cima não tinha nem mesmo uma troca de roupa, dependendo somente dos trapos da minha mãe para poder se vestir diferente. Sim, porque não havia apetrechinhos para uma boneca que nem sequer era fabricada ainda. Eu fazia papéis secundários. Servia cafezinhos, abria a porta, dizia que a dona da casa já estava descendo. Ou era só figurante. Passava na rua enquanto a Barbie passeava com o Ken em seu carrão. Ou até era convidada para o chá com todas aquelas Barbies, mas não podia dizer "a". Era muda de nascença, coitada, as madames comentavam.

7 comentários:

  1. Faltou o ".com" no link, né?

    Fui lá ver e de fato achei meio fraco de acervo. Busquei alguns autores e a maioria deu zero - e olha que não procurei nenhum escritor de literaturas muito exóticas, tipo brasileira. De qualquer forma, achei isso:

    http://www.bookswim.com/book/american_gods:_a_novel-0060558121.php

    http://www.bookswim.com/book/childhood_years:_a_memoir_(japanese_modern_writer_s_series)-4770023227.php

    http://www.bookswim.com/book/summer_before_the_dark-0394484282.php

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  2. Marcos, consertei o linque.

    Vou dar uma olhada nessas dicas.

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  3. Eu recomendo todos os do Italo Calvino (preguiça de pôr os links). Parece, inclusive, que tem altos em português.

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  4. ionem, meus pais compravam roupa pra mim no supermercado. e nem era wal-mart.
    a infância é aquela fase que a gente passa o resto da vida tentando superar, né mesmo?
    bom que vc voltou a escrever! :D
    bejo

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  5. Chris, o engraçado é que eu achei Calvino em português! Vai entender...

    Thata, infância *e* adolescência. Crescer sendo nãrdi é muito difícil... Ó, não é pra querer ganhar de você no sofrimento, mas minha mãe também me comprava umas coisas na feira de domingo.

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  6. Inhone, eu pre-ci-so compartilhar o meu trauma de infância com você.

    "Todas as meninas que eu conhecia tinham a cabana da Monica. Quando chegou o meu neversário meus pais me deram uma cabana, mas a do Cebolinha porque a tal da Monica estava em falta.

    Até aí ouquei. Achei diferente. Vambora. Alguns meses depois, minha mãe passa mal e desmaia em cima da cabana. PQP! Quebram-se todas as varetas.

    Nunca mais arrumaram."

    Triste assim.

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  7. Maria Lana! Não! Ter uma cabaninha do Cebolinha acaba com qualquer criança! Aí você se acostuma com ela, passar a ter apego, pra quê? Pra ver a cabaninha quebrada...

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