10.9.07

Amigos I

Difícil de fazer aqui, hein? Primeiro porque eu não tinha pra onde ir. Ninguém precisa sair de casa pra assistir ER, lavar louça, fazer jantar, essas coisas. Os amigos do menino mais lindo do mundo são os amigos do menino mais lindo do mundo. Não meus. E eu me esforço pra gostar muito deles, como se fossem meus, mas não rola. Quem vai me aconselhar quando eu tô pê da vida, tipo música do Dominó (dor nas costas, hein, gentê, é a idade! Dominó?!)? Quem vai escutar minhas reclamações ou ouvir sobre meu banzo? Ou ouvir sobre meu dia?

Aí meu coraçãozinho se encheu de esperança quando eu consegui o emprego e eu tinha duas possíveis amigas. Uma sendo uns 10 anos mais nova que eu, a outra sendo 12 anos mais velha. Pra você ver. A primeira é a mocinha que eu fui substituir, a Karina, que aqui se diz Cõrina. Essa mocinha, juro, queria poder colocar linque pra você ver as fotos e julgar por si. Mas tenho medinho. Medo de internet me deu agora, das pessoas todas do mundo descobrirem que eu faço troça com a cara delas, que me refiro a elas em tom jocoso, notadamente a menina ela mesma.

Ela que tinha o Lime_Wire no computador do escritório, porque as fronteiras do bom comportamento profissional tem limites, como direi?, elásticos, quando se tem 21 anos. Ela usa o cabelinho assim, franjinha cuia e comprido atrás. Óculos com armação azul, meio gatinho. Ela ia de All Star (Converse, né?, que chama?) e trocava por um par de sapatilhas de couro de jacaré verde, que ela deixava embaixo da mesa dela. E as roupas são de brechó. Vestidinhos de bolinhas, cardigãs. Ou, tipo, camisetas tipo Hering viradas do avesso. Branquiiiiiiinha, você não tem idéia.

Ela recebe revista da Martha Stewart, cartões postais de um sítio da internet que manda cartões pelo correio todo mês, assina National Geographic, e uma outra revista de design, acho. Me pergunto se eu devo surrupiar as revistas ou ligar pra ela e avisar. Como ando em onda de honestidade extrema, estou mais pra ligar e avisar que tem revistas pra ela lá. Ela toma chá verde numa canequinha que ela deixa na mesa dela e é vegetariana. E toma água chique. Água do bebedouro? Não, água francesa.

Aí ela me disse que queria sair porque ela não queria ser secretária o resto da vida, porque ela quer "trabalhar com as mãos", e me mostrou uma pulseira que ela tinha feito na aula de bijuteria. Acho muito válido querer ser artista aos 22 anos, mesmo porque, nunca se sabe, vai que ela vai ser boa artista mesmo? Todo mundo tem direito a querer ser artista quando tem seus 21 ou 22 anos. Algumas conseguem, né? Dizem. Digo, serem artistas (nem vou dizer bons). Aí ela me mostrou o flickr dela. E aí o retrato inteiro se formou. Fotos, assim, conceituais, algumas abstratas, outras sem graça mesmo: gente no escuro, que não dá pra ver nada. Fotos dos 4 elementos da natureza, quais sejam, fogo, cerveja, fumaça, prédios abandonados. Mas, basicamente, dela e dos amigos fazendo poses, ou não, e bebendo cerveja. Não consigo descrever. Tipo, os pés de todas as pessoas da festa em cima da mesa. Fotos da fogueira. O fogo azul, o fogo cor-de-laranja. Um dia ela saiu mais cedo. No dia seguinte, ela chegou com as unhas feitas. Logo achei, né?, que fosse o motivo. Depois ela contou que era mesmo, que ela tinha ido tirar fotos pro CD da banda do amigo, amigo esse que conserta bicicletas e tem as unhas sujas e etc. Pra mostrar o contraste, o paradoxo, compreende? Eu compreendo, compreendo tudo, mas mesmo assim eu achei que podia ser. Quem sabe, né? Essa pessoa poderia até ser minha amiga. A gente poderia, sei lá, fazer crochê juntas, ou tricotar, ou fazer colagens. Ela ia voltar depois de 3 semanas visitando os pais na Califórnia, mas acabou que eu roubei o emprego dela. The end.

* * *

Pera, só pra explicar. Porque meu tchefe, coitado, é meio falido, e não tem volume de trabalho suficiente pras duas. E ela tinha pedido demissão, não eram férias.

2 comentários:

  1. Ionita,

    eu tou aqui sempre, pra ouvir seu dia e dar conselhos. se bem que conselhos a gente não garante... palpites então.

    ngcarvalhoarrobaterrapontocompontobr, você sabe...

    beijos e saudades
    e preciso devolver seus livros...

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  2. Naty, obrigada! Uma beijoca!

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