1.6.07

Minha segunda vítima

Oi, gentê!

Não sei se vocês lembram da minha primeira vítima. Eu lembrava do nome dela por muitos anos, mas me esqueci. Tenho preguiça de procurar nos arquivos do blogue antigo (e não sei se eu realmente mencionei o nome da moça em qualquer relato anterior). Numa linda manhã em que eu estava indo para o escritório com meu pequeno e fagueiro Ka, avistei uma moça em sua bicicleta. Ela estava do lado esquerdo da rua. A moça tão faceira como meu Ka. Decidi, pois, ultrapassar a moça, já que estava, como sempre, mega atrasada para ir para o trabalho. Porque com trabalho chato fico muito evitativa e cinco minutos a mais dormindo significam meia hora a mais no trânsito de São Paulo. No mesmo instante da ultrapassagem, a moça decidiu atravessar a rua, em sua bicicleta, dando de cara, ou melhor, de lado, com a frente do Ka, que já não sorria contente, como também a moça já não sorria. A moça caiu no chão, ralou-se toda, choramingava (com razão) e sangrava um pouquinho.

Pessoas na vizinhança recolheram a bicicleta e eu recolhi a moça, que levei para casa - a dela, não a minha -, a uns 5 quarteirões da cena. Ela não queria ir para o hospital, então eu fui indo para o escritório de novo. Mas minha consciência de pessoa boa (na maior parte do tempo) e meu senso de dever e respeito às normas (menos às normas sociais, porque eu sou bicho do mato, vocês sabem), levou-me a voltar para o apartamento da moça. Subi. Ela ligou para a irmã, enfermeira no Hospital São Paulo, e decidiram que deveríamos ir pro P.S.
Ela foi levada para a emergência, pessoas perguntavam sobre o autor do crime, se houvera ele fugido. Mas eu estava lá, esperando com ela. Por que, né?, como se pode abandonar quem a gente machucou, mesmo que despropositadamente (existe a palavra?) Foi tratada junto com um fulano que conseguira a façanha de cortar a mandíbula pela metade, com uma serra elétrica. Não foi bonito, não foi gostoso, mas a moça estava bem. Uma amiga chegou para levá-la pra casa e aquela foi a última vez em que a vi. Ela que, inclusive, queria arrumar um encontro do chefe dela comigo, porque ele era baixinho como eu. Porque eu tenho essa coisa de empatia com as minhas vítimas, como você verá logo mais.

Ontem à noite, voltando da aulinha de inglês, pegando a rampa H para vir para casa. São 9:40. Paro no farol vermelho. O farol fica verde e eu, com meus super reflexos, desenvolvidos em anos de treinamento ninja (obrigada mãe, por meus genes japas), imediatamente ponho o pé no acelerador. Eis que uma criatura, também numa bicicleta, tinha resolvido pedalar com toda força alguns momentos antes, numa tentativa de conseguir bater o farol amarelo. Mas eu fui mais rápida. Modos que a bicicleta deu um totozinho na frente do carro e o moço (dessa vez um moço), caiu no meio da estrada: ele para um lado, a bicicleta para outro, o boné um pouco mais longe. O moço virava assim de um lado pro outro, "Meu braço! Meu braço!". Molinho com o efeito da adrenalina, não conseguia levantar. Mas era o meio da avenida/estrada. Catei todo mundo do chão, enfiei o moço no banco da frente, o boné e a bicicleta no porta-malas. Virei à esquerda na avenida e liguei para o B., que veio me salvar.

Mapinha. Clique nas coisinhas azuis para ler.

-- B., atropelei um bicicleteiro.
-- ... (um segundo de pânico, B. imaginando um ser disforme, ensangüentado e desmaiado no chão). Mas ele está bem?
-- Tá, ele tá no carro. Pus a bicicleta dele no porta-mala. Que eu faço?
-- Liga para a polícia.
-- Ouquei.

E foi assim que, pela primeira vez na minha vida-quase um filme, eu liguei para 911. Nessas horas, pai, você percebe a utilidade - ou até mesmo a necessidade - de crescer vendo enlatados americanos. Porque, nessa situação de emergência em minha vida-quase um filme, eu sabia o número que tinha que discar. Enquanto que, no Brasil, não teria nem idéia. Ligar para saber a hora certa? Previsão do tempo? Despertador automático? Sei todos os números. Polícia e resgate? Eu teria que ligar para a Telefonica pra descobrir. Portanto, pai, foi um alívio que eu tenha sucumbido em tenra idade ao imperialismo cultural norte-americano e assistido a, sei lá, Barrados no Baile e CHIPS.

Enfim, esperamos os paramédicos, depois de muito debate, porque a vítima, um liberiano radicado aqui, fez de um tudo pra que (1) eu não o recolhesse do meio da estrada; (2) eu não ligasse para a polícia ou para a casa dele; e (3) ele não fosse com o resgate para o hospital. Espera que espera, conversa vai e vem, o resgate chegou, o moço estava bem, mexendo o braço que doía. Nem uma gota de sangue. Sério. Nem arranhou. Como pode cair no asfalto e não ralar um pouquinho? Assinou lá que não queria ir pro hospital e não quis prestar queixa contra mim. Fui embora pra casa, no carro do amigo do B. e B. foi levar o moço e seu meio de transporte para casa, não sem antes ouvir minhas recomendações: capacete, filho. E água morna onde dói. Usa roupa clara quando estiver na bicicleta à noite. E cotoveleiras, essas coisas. Cuide-se.

A vítima: 23 anos, trabalha no aeroporto dirigindo carrinho com malas, do avião para dentro do aeroporto. O carro está com a bomba de gasolina quebrada, motivo pelo qual ele usava modo de transporte amigo do ambiente naquela noite. Veio para cá com 11 anos. Tem um colar que a mãe fez com contas africanas. O pai e a irmã moram em New Jersey. Mora com o primo, que cuida de velhinhos. Sente saudade de comer mais arroz, como na Libéria. Nunca nada de ruim vai acontecer pra ele, porque Deus está com ele, etc. "Ameaçou" chamar os paramédicos na porta de casa, porque o B. não queria ir no carro com ele comprar T.ylenol. O B. sentiu uma coisa estranha e queria ir na farmácia sozinho. Tipo, bad vibes, não sei.

Meia-noite. Liguei na delega e fiz B.O.

Meia noite e quinze. B. ronca.

Meia noite e meia. Babo no travesseiro. Sonhando com carros e hospitais.

6 comentários:

  1. Pelamor! Atropelar alguém não está na sua listinha de coisas a fazer! Se bem que, né?, ia ser muito coisa de Sex in the City achar alguém desse jeito.

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  2. Rs... Gostei do seu blog!
    Eu tenho um sério problema: se tiver de cabeça quente, tipo, discutir em casa, bato. Já bati o carro umas 3 vezes assim. Ainda não atropelei ninguém.
    Bjos!
    Faça-nos uma visita tb!

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  3. Eu vivo com pavor de ciclistas. Aqui no Rio são raras as ciclovias, então a gente tem que compartilhar ruas e estradas com eles. Quando as tais são tranqüilas, ok, mas em vias movimentadas, quando vejo bicicletas ziguezagueando na frente do meu carro, vai me dando uma enorme aflição, você nem tem idéia. Por sorte, nunca atropelei ninguém.

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  4. wow!! :O
    menina, eu sou o contrário: vivo sendo quase atropelada. Um acidente ambulante.
    Mas isso é só pq eu não dirijo hehe.
    bj

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  5. Sim, definida, mesmo que homônima. já linkei seu blog. estou gostando das aventuras e atropelos. Realmente, isso da primeira vítima querer apresentar o chefeinho é hilário.

    beijos do Rio.

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  6. Renata disse...
    http://www.blogger.com/profile/00156560014388827443
    Ioney, contando que a sua primeira vítima queria te arrumar com o chefe dela, eu só posso achar que você quer que eu saia atropelando pessoas por aí... ;)

    6/01/2007 6:47 PM

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