4.4.07

Da educação e da ajuda

Uma amiga de infância, que conheci quando eu tinha, sei lá, uns 6 anos e de quem continuei muito amiga até os 14, quando mudei de escola e de bairro, veio morar por aqui. Conversando no "telefoninho da internet" (que é como meus pais e eu chamamos os Scaip), ela se queixou de que os americanos são rudes e que não querem saber de ajudar. Na hora, confesso que eu disse que entendia muito porque eles são rudes mesmo. Mas depois fiquei pensando e descobri que não.

Não é que eles não queiram ajudar. É que eles são diferentes. Por exemplo, ela disse que foi pessoalmente a algumas universidades pra pedir informação sobre cursos de pós. Ela esperava que respondessem perguntas (qual é regência de perguntar mesmo?) e que dessem detalhes. Ao invés, eles deram pra ela um catálogo informativo. Pra ela, enfiar um catálogo na fuça de alguém como forma de responder às perguntas que ela tinha (tentando uma regência diferente aqui, hein?), era não ser educado, de modo que ela se sentiu dispensada e desimportante.

Mas o caso é que no Brasil, e em outras host cultures, a gente aprende a fazer das tripas coração pra ajudar alguém. No caso da minha amiga, seria quase como levá-la para fazer um tour pelo campus e bater na porta dos counselors para alunos internacionais, segurando a mão dela. Aqui, as pessoas crescem sendo super independentes (B., por exemplo, era responsável pela comidinha pra levar pra escola desde os 7 anos de idade - ele fazia sanduíches de manteiga de amendoim com banana).

Muitas vezes, a ajuda que eles dão é mais uma dica que uma ajuda propriamente dita. Por exemplo, eu fazia parte de um forum sobre vistos (de viagem mesmo). As pessoas perguntam coisas como "que documentos devo mandar com o formulário?" - informação facilmente encontrada nas instruções que acompanham o respectivo formulário. Os americanos diriam coisas como: "O Google é seu melhor amigo". Já eu, daria o linque que leva ao formulário, ou ainda, colocaria entre aspas as informações pedidas e colocaria a fonte embaixo.

Pode parecer bobice, pode parecer que eu, de uma host culture, esteja fazendo mais do que o pedido, a ponto das pessoas tirarem vantagem de mim. Mas diga aí se você não daria mais detalhes também? Pense em situações em te pediram ajuda.

Um outro exemplo aconteceu com o J. Ele está à toa na vida, e o amor dele não o chamou. Rola uma certa letargia, um certo aconchego às facilidades da mesada que o irmão dava pra ele, etc. Aí eu descobri esse negócio de voluntariar com imigrantes e convidei-o para ir comigo. Dei data, dei carona, expliquei com tintins. Depois disse pra ele imprimir um currículo e ir pedir uma vaga de professor. Funcionou. Agora ele está todo interessado em ensinar inglês. Fosse uma ajuda americana, seria "você já pensou em trabalho voluntário? talvez dar aulas?" - cabou.

Essas coisas são difíceis de entender um pouco. Às vezes, eu fico esperando que me peguem pela mão. Que não me falem do Google, mas me dêem o linque (figura de linguagem, hein?). E essas pequenas coisas, conversas e risadas bem altas quando chegam de madrugada em casa e você está dormindo, o espaço social (o círculo em volta da gente que outras pessoas não podem invadir, que pra eles é bem maior), a ajuda que não é igual à nossa, o fato de o Fogo de Chão daqui não servir coração de frango, essas coisinhas todas fazem a adaptação não exatamente difícil, mas também não muito fácil.

Ai, eu sou muito bestinha. Eu faço tantas generalizações.

5 comentários:

  1. Oi menina...
    Eu náo acho que tu sejas "bestinha"... Gosto da forma como tu vê as coisas au teu redor e acho que isso facilita a adaptaçáo. Porque se a gente ficar achando defeito em tudo o que eles (os americanos no teu caso e os paraguaios no meu caso...) fazem ou dizem, a gente fica malukinha!
    Náo desiste de tentar entender as coisas e as pessoas.
    Boa sorte!
    Bjs
    Marcele

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  2. Vc falou q seu cabelo estava lindo, por acaso tirou alguma foto dele qdo estava do jeito q vc gostou? Fiquei curiosa pra ver... Um abraço...

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  3. Marcele, nao boto defeito, mas vejo diferencas claramente.

    Rose, vou procurar. Se achar, eu posto aqui.

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  4. Sei la, tantas vezes as pessoas falam pra mim essa generalizacao de que "os americanos nao tem vontade de ajudar voce mas os brasileiros tem", que eu fico ate nervosa, porque eu muito nao concordo. Mas voce aqui falou uma coisa interessante - de que as pessoas aqui crescem sendo independentes. E eu me considero uma pessoa independente, seja la por que cargas d'agua, mas vai ver que eh por isso que eu me identifico tao facilmente? Fico feliz quando me falam "procura no google" em vez de me dar tudo mastigadinho. Pra mim, eh um voto de confianca de que eu tenho capacidade de fazer aquilo.

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  5. Juliana, eu tambem sou independente e amo o Google (figura de linguagem de novo). Mas acho que essa analogia toda tem sentido. Eu nao acho que americanos nao queiram ajudar, so acho que eles ajudam diferente.

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