12.4.06

Tomar pé na bunda é bom

Dá vontade de escrever coisas. Não que eu tenha levado um pé na bunda nos últimos tempos, os últimos tempos sendo o último ano. Já viu que sofrer rende assunto, e a gente quer mesmo falar pra todo mundo o quanto tudo é tão triste e você só consegue ouvir Maysa o dia inteiro. Daí que quando eu levei o pé na bunda (sem entrar no mérito, descarecendo muito - e, entenda, eu superei, estou em outra, muito mesmo, sejam felizes, eu amo vocês, vocês são legais, etc.), eu resolvi que ia escrever O manual da quase-corna chiquérrima, ou algo assim. Poderia ser. Eu tive muitas idéias pra títulos e tive idéias para ilustrar o livro e ele seria engraçado e venderia muitos milhares de exemplares, blablablá.

Aí eu comecei:

“Se essa for de fato a última vez que nos vemos, você tem certeza de que quer ir ao MacDonald’s?”

Ele me olhou um tanto desconfiado e perdeu a voz por um segundo. Um segundo que o fez titubear e dizer:

“É mesmo. Onde então?”

“Não tem problema. E eu adoro MacDonald’s.”

Pior que era verdade.

Ele ainda insistiu mais um pouco, mas acabamos descendo a Padre Machado em direção à Ricardo Jafet. Eu pedi o de sempre, um número 1 com Coca light e ele, dois hambúrgueres e uma coca pequena normal. Num gesto de gentileza, que poderia ser também um dos últimos, ele pagou os lanches com tíquetes do trabalho, cada um valendo 2 reais. Peguei a bandeja e fui me sentar na nossa mesa de sempre – era realmente grave: as pessoas têm uma mesa de sempre numa loja de fast food –, com 4 lugares e cadeiras que não são chumbadas no chão, atrás de uma coluna. Ele veio depressa com dois potinhos de ketchup: “Pra você.” Não deixava de ser um presente. Dois potinhos de ketchup. Ouquei. Ele estava tentando todo um repertório de gentilezas. Eu adoro mergulhar a ponta das minhas batatas fritas em ketchup.

De volta pro carro, ela abriu a porta para que eu entrasse (certo, eu já sei que você é um cavalheiro, pourra!), e a caminho da casa da minha mãe, fiquei pensando em algo genial pra dizer pra ele, as últimas palavras de uma mulher, alguma frase de efeito, como num filme. Se fosse pra acabar tudo, então que fosse lindo. Que quando ele se lembrasse, chorasse. Mas a única coisa que disse foi: “Queria dizer alguma coisa genial pra você. Mas não consigo pensar em nada. Nem em coisinhas do cotidiano.”

Já em frente ao prédio, demos um abraço bem apertado. Dei tapinhas nas costas dele: “Até algum dia”. Depois completei: “Ou não”.

Ele não gostou da piada. Mas rimos. Ele me apertou mais um pouco e depois me deu um selinho. O selinho que eu tinha esperado fazia muito tempo mas não tinha ganhado até então. Até que ele não era tão gentil assim. Não era bonito de se fazer isso. Dar um selinho num momento de despedida.

Então eu pensei que se eu escrevesse um livro da nossa história, ao menos esse seria um excelente capítulo. Ia ter toques de humor, ia ser triste, ia ser tocante. Ia ser do tipo de se ler enquanto se come pipoca e as páginas dos livro vão ficando manchadas de gordura e você não liga, não está nem aí. Quando abri finalmente a porta do carro, já estava me achando um gênio da literatura estilo Bridget Jones. E eu acreditei, por instante, que eu estava na cena de um filme. O meu.

Aí eu escrevi 15 páginas. Mas, na verdade, uma é a capa do livro, a última página tem 3 linhas e e eu confesso que peguei coisas do blog antigo pra colocar, inclusive figurinhas. Porque adulto também tem direito a ler livros com ilustrações. Eu leio Douglas Coupland e fico achando que é tão simples escrever e não me conformo como é que pode ser que eu não consiga. Não me conformo. Vou ler Douglas Coupland sem parar (e quem quiser me presentear, pode me dar Life after God, Shampoo Planet, Miss Wyoming ou Hey Nostradamus! - meu aniversário é no próximo 28). De domingo pra segunda, eu fui dormir e tive muitas idéias para o "livro.doc" - é assim que eu chamei o arquivo, que eu salvei em Meus documentos, cheia de pretensão. Se toca, Ione. E fiquei pensando em escrever um blog. Com a história. Porque blog é bem menos assustador. Eu não tenho competência pra escrever livro - and I'm so not fishing for compliments, so not! -, mas até que houve épocas em que eu gostava do meu blog. Ele costumava ser engraçado (dammit, pensei em inglês de novo). Mas aí eu esqueci quais eram as idéias tão geniais assim que fechei os olhos finalmente pra dormir.

3 comentários:

  1. nãaaaaaaaaaaaaaao! não escreva um blog! escreva um livro! e encha os tubos de dinheiro, pq um troço desse ia vender pacas! vai fundo!!

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  2. Lembra que você me mandou o primeiro capítulo disso, faz teeempo? Ai, estou te devendo um e-mail enorme, contando tudo do estado de felicidade atual...

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  3. mais um voto: você TEM que escrever um livro.

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