26.4.06

No café, de novo

No café, de novo. Eu sempre me sento à mesma mesa. Da última vez em que estive aqui, deixei meu isqueiro sobre a mesa; a garçonete o devolveu para mim hoje. Eu agradeci efusivamente - efusivamente mesmo. Eu agradeci não só pelo gesto mas também porque nossas vidas se ligaram por um segundo e eu pensei sobre a carta que eu quis deixar aqui no outro dia. Eu não sei o nome da garçonete e eu não acho que ela saiba o meu, apesar de eu pagar o café com meu VISA. Se eu perguntar a ela como ela se chama, eu tenho medo de estragar alguma coisa, que alguma coisa se perca, embora eu não saiba exatamente o quê.

Eu tenho vindo aqui desde há dois meses, todas as segundas e quartas-feiras, e eu fico aqui por uma hora, às vezes mais. Talvez ela se pergunte por quê. Ela talvez tenha suposições esquisitas que expliquem por que eu venho aqui. Talvez ela nem pense nisso. Mas se ela pensa, o que será que ela pensa? Sério, é uma pergunta. Eu sempre trago livros, esse caderno e às vezes eu trago minha câmera fotográfica.

Está quentinho e faz sol, mas o ar está seco, então não dá a sensação de estar tão quente. Faz 28C. Tem algo sobre manhãs de outono - elas são silenciosas e tudo parece estar absolutamente imóvel, quase como se o tempo tivesse parado.
Mensagem de SMS pra ele: "Você está com fome?"
Mensagem de SMS dele: "Estou! Como você sabia?"
Ele sempre tem fome. Fez-me sorrir, quase rir um pouquinho. E eu me senti feliz por um segundo, e o tempo começou a andar de novo. Eu fico pensando se a vida é pra ser feita desses pequenos momentos - felizes ou tristes - ou se eu deveria esperar mais da vida. Eu tenho medo de pensar que há mais pra se esperar, porque eu não saberia o que fazer pra conseguir o que quer que seja esse algo maior e melhor.

4 comentários:

  1. A garçonete do mullholland drive, como se chamava?

    lembrei dela

    ResponderExcluir
  2. Para mim é feitas por momentos, grandes, pequenos, triste, absurdamente tristes ou felizes, "megalomaniacamente" felizes.
    e nem por isso, ser ruins..

    Bjs

    ResponderExcluir
  3. Querida Ione,
    Você é linda demais. Eu tenho procurado momentos assim, pois minha vida é prática demais e é por isso que vivo assim, tão cansada e sem vontades. Pequenos prazeres de Amelie Poulain. A vida fica um pouco mais suave e sim, as manhãs de outonos são como você descreveu.
    Beijos

    ResponderExcluir
  4. Olá Ione,

    Acho que todo mundo se sente assim.
    Tem um trecho de uma musica de gosto duvidoso que diz assim: Felicidade é ter crediário nas Casas Bahia.

    Um momento feliz, se traduz em adquirir algo novo que te faça esquecer o “velho”.

    Adquirir "felicidade" empacotada para presente, com garantia estendida e entrega em domicilio, infelizmente pra mim isso não resolve.

    Mas sabe porque não resolve? É porque o que eu queria de verdade é ter um amorzinho a vista, de preferencia que não estivesse em oferta, para cortar-lhe as unhas dos pés numa manhã de outono... sentados junto a uma janela sob a luz do sol.

    Existe um gesto de carinho maior do que este?

    Um abraço pra você.

    Escreva mais...pleaseeeeeeee.

    Carlos.

    ResponderExcluir