11.11.05

21 de fevereiro de 2003, sexta-feira

Para dar fim a essa semana e voltar a me preocupar com coisas importantes, como comprar um biquini, pedir ao Diogo a mochilona dele emprestada e pensar em que sabor de milkshake pedirei hoje no Joakin's e como esse milkshake colocará no chão todo um esforço de meses e como amanhã eu vou a um aniversário e se estará sol, falarei pouco. Não, eu não falarei pouco, mas achei bonito fazer que vocês acreditassem na primeira mentira do meu dia. Antecipadamente, peço desculpa pela breguice que me invadiu. Às vezes, é inevitável ser ridícula, mesmo que não seja quando se escrevem cartas de amor.
Fato é que, muitas vezes, saímos por aí falando feito loucos, sem que tenhamos nos dado o tempo suficiente para pensar sobre o que é mesmo que estamos sentindo e pensando. Constantemente eu penso naquele provérbio que diz (minha memória pode me enganar muito, vocês sabem quantos anos eu tenho?) que a palavra lançada não volta atrás. Às vezes desejamos que a palavra que lançamos (ou a que nos foi lançada), seguisse os conselhos de Zenão, e de metade em metade do percurso, não chegasse nunca ao seu destino.
Mas pronto, é inevitável. Ela chega aonde se pretendia que chegasse, não há escapatória possível. A partir daí, é um mundo de reações e equívocos, ou ainda, os equívocos já começaram quando se pretendeu dizer algo a alguém.
Se comunicação não é só palavra, os equívocos multiplicam-se porque, havendo palavras que deveriam bastar para designar tudo e tornar o entendimento possível, mas que ao fim e ao cabo, não cumprem o papel de maneira fiel, não se pode esperar que compreendamos melhor os gestos. E todos sabemos como os gestos são coisinhas tão espertinhas e que pregam peças, não é à toa que em todo filme americano de amor, tem alguém que diz que recebeu "mixed signals". E reagimos a uns (gestos) e a outros (palavras) e os equívocos voltam a nascer, multiplicam-se feito uns gremlins: bastou chuviscar um pouco de comunicação, pronto. É pior que praga de ratos na Nova Zelândia ou de gafanhotos no Egito.
Ao mesmo tempo que reagir impede a análise, se ao contrário, nós nos debruçássemos sobre tudo o que nos foi dito (sob qualquer forma), aonde é que isso nos leva? Porque quanto mais se pensa, menos coragem se tem. Parece que pensar e encorajar são essas duas grandezas que crescem em desigual proporção. Quanto mais tempo se leva matutando, mais a espontaneidade se esconde -- o que às vezes é bom, às vezes é muito ruim -- mais obstáculos colocamos, escoramo-nos em nossos cuidados e nossos cuidados são os maiores obstáculos.
Quando o seu chefe lhe diz que você é um zero à esquerda, melhor é internalizar e esquecer a reação. Ninguém gosta de subordinados que metem a mão na cara de seus superiores, pra deixar marca de dedo naquela bochecha e fazer ressoar um estalo bem alto pelos corredores do escritório. Quando alguém diz: gosto de você, responda imediatamente. Freqüentemente, perdemos a coragem de querer dizer que gostamos, como se no próximo segundo o gostar do outro se fosse esvair e ele não compreendesse mais sobre o que mesmo estamos falando.
Eu queria fazer dessa mensagem um chamamento à coragem. Tomara mesmo não existam palavras vazias.
Bom fim de semana.
"(...) parte do barro com que modelam agora uma figura provém de outra que tiveram de desprezar e amassar, assim é com todas as coisas deste mundo, as próprias palavras, que não são coisas, que só as designam o melhor que podem, e designando as modelam, mesmo se exemplarmente serviram, supondo que tal pôde suceder em alguma ocasião, são milhões de vezes usadas e atiradas fora outras tantas, e depois nós, humildes, de rabo entre as pernas, como o cão Achado quando a vergonha o encolhe, temos de ir buscá-las novamente, barro pisado que também elas são, amassado e mastigado, deglutido e restituído, o eterno retorno existe mesmo, sim senhor, mas não é esse, é este." pp. 156-157
"Penso que as palavras só nasceram para poderem jogar umas com as outras, que não sabem mesmo fazer outra coisa, e que, ao contrário do que se diz, não existem palavras vazias." p. 204
"O oleiro não acompanhou desta vez o tom jovial da filha, antes falou sério e sereno como se estivesse a recolher uma a uma as palavras que tinham ficado lá atrás, no lugar em que haviam sido pensadas e deixadas a madurar, não, essas palavras não foram pensadas, nem tinham de amadurecer, emergiram naquele momento do seu espírito como raízes que tivessem subido subitamente à superfície do chão,(...)" p. 168
SARAMAGO, José. A caverna, São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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