27.7.05

Saudade, Ligia?

Eu sinto saudade, claro. Como todo mundo sente, das coisas de que a gente se lembra, mas especialmente daquelas que nunca experimentei e das quais não tenho lembranças.

Coisas como abraço da minha avó japonesa, que só conheço por foto e que, dizem, numa dessas histórias de família, que ajudou meu irmão a me salvar de me afogar na piscina. De conversar com meu ditchan, que só falava japonês, de estar mais tempo agarrada à minha avó que morava no interior e de ouvir mais histórias do meu avô enquanto lhe fazia cafuné. Ou de ouvir o que meu irmão Gunga falava pra mim enquanto eu ainda estava na barriga da minha mãe. De entender quem era minha irmã realmente e de ter respondido às cartas que ela me escreveu quando esteve fora, em vez de esperar que voltasse sem saber que quando ela voltasse seria muito tarde. Ou de brincar mais com meu irmão Binho e pegar mais caronas na garupa da nossa bicicleta para ir às aulas de ballet.

Sinto saudade do que já foi bom e não pode ser mais, mas sem querer recuperar o que se perdeu pra sempre, porque sei da impossibilidade de voltar a sermos quem éramos e sentir tudo o que sentíamos e de recuperar uma beleza que se move, não a beleza imutável do que não se pode mais alterar, como nas fotografias.

Sinto saudade de tudo quanto não me lembro e de que só sei por ouvir dizer, de tudo que gostaria de ter sentido e não senti por não saber como ou por não ter aprendido o tanto necessário para senti-las, ou simplesmente por não querer senti-las. De tudo que eu penso que poderia sentir se não fosse por haver a distância e o tempo e a impossibilidade. Sinto saudade do que está por vir. Especialmente disso. Sinto saudade do que nunca tive e que poderei vir a ter. Das memórias que ainda estão por se criar.

2 comentários:

  1. Sabe Bigo?
    então... quando eu tinha uns 2 anos, na casa da minha avó que já morreu, havia um cachorro igual a Bigo. mas o nome dele era Fred.

    existe uma foto minha com Fred, mas eu não me lembro. nem de ele ter existido, nem de ele ter brincado comigo ou deixado de existir.

    mas a foto está aqui, no meu albinho de criança pequena...

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  2. Memória é uma coisa muito estranha, Naty.

    Recomendo a todos que leiam "The invention of solitude", do Paul. Auster, claro.

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