26.7.05

Outro pra Lys (caramba, Lys, que memória!)

Eu queria aprender a fazer poesia

Eu queria aprender a falar delicadezas que não fossem tão tristes, nem fizessem a gente se sentir pequena e escura por dentro e com medo de tirar as meias e pisar no chão frio. Eu acordei com saudade. Saudade é bom pra acordar com a gente. A gente levanta e deixa a saudade dormindo quietinha na cama, com medo de ela assustar com o barulho do vento entrando pela janela -- para colocar as mãos pra fora e sentir se frio, se calor, se azul -- com o barulho da roupa sendo vestida e do perfume voando no ar até o colo. A saudade enrolada na colcha de retalhos dos pijamas dos irmãos, costurados na máquina da minha mãe, os pés dela escondidos, pequenos, fazendo correr a agulha nos panos, os pijamas com desenhos de navios, com estampas de bonecos de neves de flanela, corujinhas com olhos grandes, sorrindo. Dava medo de acordar a saudade dormida com o barulho da lembrança da máquina de costurar. Eu queria aprender a falar delicadezas que fossem silenciosas e tristes como se fossem uma agulha guiando os fios de sedas azuis e amarelos e de outras cores também, a agulha, o dedal. O ponto cruz das flores no sereno. O sereno.

julho/2004

2 comentários:

  1. Lys sorri agradecida por poder ler isto aqui e aquilo ali embaixo de novo. Agora ela não pede mais nada, você pode ficar tranqüila. Deu um "copiar e colar" e salvou numa pastinha de belezas que vai catando pelo mundo.

    Obrigada de novo.

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  2. Ah, só pra Lys, é? Hmpf... Se eu pedir um texto, você coloca? Aquele da Augusta, cheio de aliterações com au... Eu adorava, li várias vezes :o)

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