31.5.05

Cat lady

Acho muito estranho que as pessoas me procurem atrás de conselhos. Alguém cuja cor preferida é azul e que ouve Portishead e lê Sylvia Plath, e tem esse apego sentimental a um cobertor azul só porque ele era de alguém que ela amou muito e que morreu inesperadamente, e que gosta de dias chuvosos porque haver chuva é a desculpa perfeita pra não sair de casa. E eu odeio mapas. I adoro mapas, mas odeio. Você olha pra eles e percebe o quão distante os lugares estão. Não, você não tem que entender tudo o que eu digo.Não o tempo todo.

O que eu realmente acho estranho é que as pessoas ouçam de verdade o que eu digo e que o que eu digo faça sentido. Qualquer sentido. E que as coisas que eu diga tenham esse efeito sobre as pessoas. Elas me ouvem (o que por si só é bem bizarro) e daí, de repente, elas chegam a essa compreensão interior, mais um acordo interior que compreensão. Esse sou eu freaking out e esse sou eu ouvindo o que a Ione diz e nós concordamos que o que ela está dizendo é razoável e faz sentido, de modo que deve estar certo.

Não. Presta atenção. Eu tento não pensar nas coisas. Eu evito pensar naquilo que eu sei que vai me fazer sofrer de algum modo. Não, eu não uso drogas e eu não bebo muitíssimo e eu só dumro umas 6 ou 7 horas. Eu simplesmente coloco esses pensamentos dentro de uma gaveta na minha cabeça, em algum lugar não facilmente acessível, meio como quando você esconde algum presente que ganhou de um ex que te fodeu muito e aí quando você quer encontrar o presente de novo porque já pode olhar pra ele e se sentir bem de novo (ou não sentir nada) não consegue. Meu plano é adquirir vinte gatos e ficar louca (e deixar os gatos lamberem meus copos e louças e pularem na mesa enquanto eu como) e usar roupas que dêem o dobro de mim e falar alto comigo mesma, pensamentos desordenados, pra que ninguém preste atenção em mim de novo e pra que eu saiba que elas têm um boa razão, uma razão plausível pra não gostarem de mim. Uma razão que eu consiga entender.

Claro que eu tento me conservar lúcida (exatamente como se faz quando você sonha e tenta se lembrar de tudo depois) e às vezes eu consigo manter a lucidez e entro em pânico. Daí eu vou pra debaixo da coberta azul. O que eu estou tentando dizer é que eu posso dizer essas coisas legais em que eu acredito quando estou dizendo, mas há ocasiões em que eu me sinto tão perdida quanto qualquer pessoa e só preciso de alguém que me diga 'Olha, a vida é uma merda, mas não o tempo todo, e a gente vai conseguir entender tudo isso e achar uma boa saída'.

5 comentários:

  1. Vi um link p/ teu blog no do Renato (vida de cinéfilo), resolvi bisbilhotar e 'dei de cara' com esse texto lindo.

    Se vc assim permitir, hei de voltar.

    :)

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  2. Oi, Carola. Obrigada pela gentileza.

    Volte sempre :)

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  3. Aha!! Voltou!! Voltou e eu nem tava sabendo!! Inda bem q eu mantive o h´bito de passar aqui de vez em qdo, neh? Ionita, eu sou uma das pessoas que ouve o que você diz. Bjs

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  4. Prestenção, Thata: Não me oiça.

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  5. Eh...ouvir eu num ouço não...só leio heheh...serve? Bjs!

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